Novo governo precisa ligar tecnologia ao setor produtivo

O presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não conseguirá cumprir uma das principais metas de seu programa de governo, promover a exportação, se não conseguir distinguir o que é ciência, tecnologia e inovação, defendem algumas entidades ligadas a esses setores. Isso porque no Brasil ainda não está claro que a tecnologia e a inovação são desenvolvidos pelo setor produtivo, e não por universidades e centros de pesquisa. Com isso, os recursos e a política pública acabam se direcionando para estes últimos, prioritariamente. ?O programa do PT peca na base, porque parte do pressuposto de que tecnologia é produto de universidade e não é, é do setor produtivo, está associado à produção?, critica Roberto Nicolsky, diretor geral da Sociedade Brasileira Pró-Inovação (Protec). ?Há uma certa confusão entre a ciência e a tecnologia, que não só o PT, mas muita gente faz?, concorda Luiz Carlos Delben Leite, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq). ?As universidades promovem a formação de recursos humanos de alta qualidade, tem foco em ciência e difusão do conhecimento?, explica Leite. ?A inovação é feita no âmbito da produção, para melhorar custos, competitividade, aumentar o lucro?, completa. Para ele, ambas devem ser tratadas como coisas distintas, o que não ocorre na proposta inicial do PT. Atividade empresarial?Quando se mistura ciência e tecnologia, a tecnologia perde. No Brasil, ela está no ambiente errado (universidade) e é feita por pessoas competentes, mas que não têm esse foco de atuação, e sim a ciência?, aponta Nicolsky. A tecnologia segue o binômio pesquisa e desenvolvimento, atividades que devem ser feitas pela empresa, que conhece seu mercado e seus competidores. Como resultado, segundo ele, o Brasil enfrenta um grande déficit tecnológico. Em 1992, o País gastou US$ 200 milhões em compra de tecnologia e licenciamento de patente. No ano passado, a cifra pulou para US$ 3 bilhões, segundo ele. Nicolsky cita como exemplo bem-sucedido no Brasil o caso da Embrapa, que desenvolve pesquisa tecnológica para o setor agrícola e pecuária. ?A tecnologia agrária não está no Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), está no Ministério da Agricultura?, lembra. ?A tecnologia tem de estar onde está a produção. Os países que fizeram isso deram certo?, aponta, citando ainda a Petrobras, a Embraer e a Embraco, empresas nacionais que fazem pesquisa e desenvolvimento. Américo Craveiro, presidente da Associação Nacional de Pesquisa, Desenvolvimento e Engenharia das Empresas Inovadoras (Anpei), mostra que essa desvinculação é corrente ao lembrar que o MCT e os outros ministérios que se utilizam da ciência, tecnologia e inovação, como o Ministério da Indústria e Comércio, da Agricultura, da Saúde e do Meio Ambiente, não trabalham em conjunto. ?Na França, por exemplo, há o Ministério da Indústria e o Ministério da Pesquisa, e eles estão enfrentando o mesmo problema, acoplar a política industrial com a tecnológica?, conta. ?Será um avanço para o próximo governo, mas isso é tratado, rapidamente, na proposta do PT, e é preciso maior ênfase a esse aspecto?, destaca.Já o ponto positivo do programa proposto por Lula é justamente vincular a ciência e tecnologia à balança comercial, segundo Craveiro, que também é diretor de desenvolvimento tecnológico da Vallée, empresa de produtos veterinários. ?Mas isso requer um ambiente favorável à pesquisa, desenvolvimento e inovação industrial?, ressalta. Craveiro lembra que já existem mecanismos para criar esse ambiente, como a Medida Provisória 66, que dá incentivos fiscais para as empresas que investirem em ciência e tecnologia, e a equalização da taxa de juros promovida pela Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), agência do MCT que financia empresas que querem investir em inovação. ?Só que esses mecanismos precisam ser colocados em prática pelo novo governo?, destaca. Elevação dos investimentosSobre a meta de elevação dos investimentos em ciência e tecnologia de 1% para 2% do Produto Interno Bruto (PIB), proposta pelo PT, Nicolsky diz que é preciso corrigir o padrão de gasto atual. ?O problema não é elevar o investimento, mas dar bom uso ao gasto que tem hoje. O Brasil não faz tecnologia porque gasta mal, não é questão de montante, isso é subseqüente?, aponta. Craveiro e Leite consideraram a proposta compatível com o que é praticado por países desenvolvidos, mas ressaltaram que será difícil atingir essa meta e será necessário um grande esforço por parte de Lula. Todos destacaram também a preocupação do PT de citar que o País precisa assegurar recursos estáveis para a pesquisa básica.

Agencia Estado,

30 de outubro de 2002 | 13h10

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