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Novo método meteorológico permite prever chuvas extremas

Unindo dados de satélites e técnica de 'redes complexas', cientistas conseguiram fazer a previsão de eventos extremos nos Andes

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

15 Outubro 2014 | 00h01

Atualizado às 20h23

Com um novo método de previsão meteorológica, um grupo de cientistas conseguiu predizer eventos climáticos extremos nos Andes e na Amazônia. Até agora, os métodos convencionais conseguiam prever as chuvas, mas não eram capazes de detectar sua intensidade. Ao aplicar uma técnica de redes complexas aos dados meteorológicos obtidos por satélites, o grupo - com cientistas do Brasil e Alemanha - conseguiu prever chuvas extremas e enchentes na região. O estudo foi publicado na revista Nature Communications.

Segundo os pesquisadores, o método poderá ser aplicado em outras regiões do mundo."Os modelos atuais de previsão de tempo não conseguem capturar a intensidade dos eventos de precipitação mais extremos, mas estes são justamente os mais perigosos e que podem ter impactos mais severos para a população local, por exemplo, em termos de inundações e deslizamentos de terra", disse o autor principal do estudo, Niklas Boers, do Instituto de Pesquisas em Impactos Climáticos de Potsdam (PIK).

Embora a ferramenta tenha sido desenvolvida a partir de uma enorme quantidade de dados, usando recursos altamente complexos, os cientistas conseguiram chegar a um conjunto de regras relativamente simples para sua aplicação, de acordo com outro dos autores, Henrique Barbosa, do Instituto de Física da USP. "Com isso, o método pode ser aplicado em centros meteorológicos regionais", disse. 

De acordo com ele, a taxa de acerto das previsões de eventos extremos é de 60% em anos normais e de 90% em anos de El Niño. "A eficiência é muito maior que a que se consegue com modelos numéricos e supercomputadores. Pela primeira vez se conseguiu construir um sistema de alerta robusto para esse tipo de eventos", declarou Barbosa. Para desenvolver o método, a equipe de cientistas analisou em torno de 50 mil séries temporais de dados meteorológicos em alta resolução, referentes aos últimos 15 anos, quando dados de satélite de alta qualidade, disponibilizados pela NASA e pela Agência de Exploração Aeroespacial Japonesa, tornaram-se disponíveis. 

Clima andino decifrado. Barbosa afirmou que o novo método surgiu a partir de estudos que o grupo estava realizando sobre o papel da floresta Amazônica nas chuvas sobre a América do Sul. "Achávamos que os grandes extremos de precipitação se deslocavam para o sul, de acordo com o caminho dos ventos que transportam a umidade da Amazônia para o sul do Brasil. Surpreendentemente, ao contrário do entendimento científico estabelecido, observamos que esses eventos extremos se propagam em direção contrária aos ventos do sul", disse. 

Ao aplicar o novo método, além de compreender a trajetória inesperada da propagação das chuvas extremas na região, os cientistas conseguiram estabelecer uma ferramenta para prevê-las. "Descobrimos que esses grandes sistemas convectivos surgem na área em torno de Buenos Aires, mas depois se propagam para noroeste em direção aos Andes, onde dois dias depois eles causam eventos extremos de precipitação", disse Boers. 

Eles explicaram que as monções da América do Sul, entre dezembro e fevereiro, trazem massas de ar quente e úmida do Atlântico tropical. Ao se propagarem para oeste, os ventos são bloqueados pelos Andes - cujas montanhas têm altitude de 3 mil a 5 mil metros -, e viram em direção ao sul. Sob condições específicas de pressão atmosférica, essas massas de ar quente, carregadas com umidade, encontram os ventos frios e secos vindos do Sul. "Esse contraste resulta em chuva abundante principalmente sobre as regiões de topografia mais elevada, resultando em enchentes severas nas encostas dos Andes na Argentina e na Bolívia, regiões com alta densidade populacional", disse Barbosa. 

"Apesar da dificuldade inicial em obter estes resultados, as instituições locais podem agora aplicar nossa metodologia facilmente usando dados que já estão disponíveis, o que pode ajudar muito", disse o coautor José A. Marengo do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. "Eventos extremos de precipitação podem resultar em enchentes que, apenas em 2007 por exemplo, foram responsáveis prejuízos acima de 400 milhões de dólares na região. Depende agora dos países afetados adaptar a sua estratégia de preparação e prevenção de desastres", disse. 

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