Novo papa sai discretamente do Vaticano para oração matinal

Por Philip Pullella and Crispian Balmer

Reuters

14 Março 2013 | 09h34

CIDADE DO VATICANO, 14 Mar - O papa Francisco saiu na manhã de quinta-feira do Vaticano, pouco mais de 12 horas depois da sua eleição, para rezar por orientação em sua tarefa de levar uma instituição em crise a uma nova era de simplicidade e humildade.

O argentino Francisco, primeiro papa não-europeu em quase 1.300 anos, foi até a basílica romana de Santa Maria Maggiore, do século 5º. Lá, rezou diante de uma famosa imagem da Virgem Maria, conhecida como Salus Populi Romano (protetora do povo romano).

"Ele conversou conosco cordialmente, como um padre", disse o padre Ludovico Melo, que acompanhou o novo pontífice na oração. "Fomos avisados com 10 minutos de antecedência de que o papa estava vindo."

Primeiro líder da Igreja oriundo das Américas, onde vive quase metade dos 1,2 bilhão de católicos do mundo, Francisco assume também o cargo de bispo de Roma.

Em seu primeiro pronunciamento, na noite de quarta-feira, ele deixou claro que vai levar a sério essa função episcopal, e já começou a cumprir essa promessa visitando uma das mais importantes igrejas da capital italiana.

De lá, ele pediu ao motorista para ir a uma residência eclesiástica de Roma onde havia deixado sua bagagem antes de se transferir para uma hospedagem dentro do Vaticano, a fim de participar do conclave. Esse detalhe mostra que o cardeal Jorge Bergoglio não tinha a menor expectativa de sair do conclave como papa.

Ainda na quinta-feira, ele deve ir à residência pontifícia de veraneio, em Castelgandolfo, ao sul de Roma, para se reunir com o papa emérito Bento 16, que no mês passado se tornou o primeiro pontífice a renunciar ao cargo em quase seis séculos, alegando que, aos 85 anos, não tinha mais forças físicas para comandar a Igreja. Francisco, aos 76, é mais velho do que outros cardeais que eram cotados para ocupar o trono.

O argentino é também o primeiro papa a usar o nome Francisco, em homenagem a São Francisco de Assis, que viveu no século 12 e é lembrado por ter abdicado da riqueza para viver uma vida humilde.

A escolha dele ocorreu no segundo dia do conclave, o que foi uma surpresa, já que não havia um favorito claro, e isso poderia levar as deliberações a se prolongarem. Seja como for, ninguém esperava que o conservador Bergoglio acabasse eleito. O italiano Angelo Scola e o brasileiro Odilo Scherer eram citados como os principais favoritos.

PAPA SURPRESO

Ao aparecer na quarta-feira à noite na sacada da basílica de São Pedro, Bergoglio parecia tão surpreso quanto a multidão à sua frente, hesitando um pouco antes de avançar para cumprimentar os fiéis.

"Peço-lhes um favor... Rezem por mim", disse ele, acrescentando que os outros 114 cardeais eleitores foram "até quase o fim do mundo" para escolhê-lo.

O 266º papa em 2.000 anos de Igreja Católica precisará enfrentar desafios colossais, como os abusos sexuais cometidos por clérigos contra menores nas últimas décadas em vários países, e o recente vazamento de documentos que mostravam casos de corrupção e disputas internas na Cúria Romana (a burocracia vaticana).

Ele também comandará uma instituição abalada pelo avanço do secularismo e de religiões concorrentes em diversas regiões, e por suspeitas de corrupção no Banco do Vaticano.

A despeito desses problemas, muitos católicos argentinos correram para as igrejas a fim de celebrar a notícia. "Espero que ele mude todo o luxo que existe no Vaticano, que guie a Igreja para uma direção mais humilde, algo mais próximo do evangelho", disse o procurador aposentado Jorge Andrés Lobato, de 73 anos.

Conhecido por seu estilo de vida modesto, o cardeal argentino parece ter sido escolhido por sua longa experiência pastoral, que o diferencia de um papa acadêmico e conhecedor dos meandros da Cúria Romana, como era Bento 16.

"Parece que esse papa estará mais ciente sobre o que é a vida", disse à Reuters o teólogo italiano Massimo Faggioli.

Bergoglio nasceu numa família com sete filhos. Seu pai era um ferroviário que imigrara da Itália, e sua mãe era dona de casa. Ele se tornou padre aos 32 anos, quase uma década depois de ter tido um pulmão extraído por causa de uma doença respiratória, e de ter abandonado a faculdade de Química.

Apesar do ingresso tardio na carreira eclesiástica, em quatro anos ele já comandava a comunidade jesuíta local.

Bergoglio é conhecido como alguém disposto a desafiar interesses poderosos, e já teve fortes atritos com a presidente Cristina Kirchner e com o antecessor e marido dela, o falecido Néstor Kirchner.

Expondo sua ortodoxia conservadora, ele se manifestou fortemente contra o casamento homossexual, denunciando-o em 2010 como "uma tentativa de destruir o plano de Deus". A expectativa é de que mantenha os mesmos ensinamentos morais pregados por Bento 16 e João Paulo 2º.

Francisco é o primeiro jesuíta a se tornar papa. A ordem foi fundada no século 16 para servir ao papado, e é mais conhecida por seu trabalho na educação e pelo avanço intelectual de seus membros.

O Vaticano disse que a missa inaugural dele será na terça-feira.

(Reportagem adicional de Catherine Hornby, Antonio Denti, Naomi O'Leary, Tom Heneghan, Barry Moody e Keith Weir)

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