Fábio de Castro
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Novo radar promete prever tempestades em SP com precisão inédita

Equipamento da USP consegue detectar chuvas com resolução de apenas alguns quarteirões e será usado para monitorar fenômenos

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

14 Junho 2016 | 21h20

SÃO PAULO - Com um novo radar meteorológico inaugurado hoje pela Universidade de São Paulo (USP), cientistas prometem prever chuvas com uma precisão inédita na capital paulista. O novo radar, que possui a tecnologia considerada mais avançada para o monitoramento de chuvas e do deslocamento de tempestades, foi instalado em uma torre, a 45 metros de altura, no Parque de Ciência e Tecnologia (CienTec) da USP, na Água Funda, próximo à nascente do rio Ipiranga.

De acordo com um dos coordenadores do projeto, Mário Thadeu Leme de Barros, do Departamento de Engenharia Hidráulica e Ambiental da Escola Politécnica (Poli) da USP, o novo instrumento aumentará a eficácia dos sistemas de alerta de cheias e inundações e possibilitará prever, com muito mais precisão e rapidez, tempestades, rajadas de vento e outros fenômenos como tornardos e microexplosões, como as causaram estragos em São Paulo recentemente.

Segundo Barros, em comparação ao principal radar atualmente usado para prever chuvas na capital paulista - que pertence ao Departamento de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo (DAEE) e fica localizado na barragem de Ponte Nova, próximo à nascente do rio Tietê -, o novo equipamento é menos abrangente, mas muito mais sensível.

“Agora poderemos identificar, em tempo real, chuvas em áreas muito pequenas, bairros, quarteirões ou ruas”, disse Barros. Segundo o pesquisador, a principal diferença é que o radar de Ponte Nova opera na chamada Banda S, enquanto o da Água Funda irá operar na Banda X, que tem uma resolução espacial mais alta e permite medir chuvas pouco intensas com grande precisão. 

De acordo com Barros, o radar de Ponte Nova abrange um raio de 200 quilômetros, mas só consegue distinguir chuvas com resolução de um quilômetro quadrado, a cada cinco minutos. O novo radar tem cobrertura em um raio de 60 quilômetros - o suficiente para cobrir toda a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) - e detecta chuvas em áreas de 100 por 100 metros (o equivalente a um quarteirão) a cada minuto.

Assim como o radar de Ponte Nova, o radar da Água Funda será operado pela Fundação Centro Tecnológico de Hidráulica (FCTH), vinculada à Poli-USP. "Os dois instrumentos vão trabalhar em conjunto, de forma complementar", afirmou Barros. 

O novo equipamento, segundo ele, será também incorporado aos sistemas de alerta em operação na RMSP: o Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE) da Prefeitura de São Paulo, a Central de Alerta do DAEE e o Sistema de Alerta da Defesa Civil do Estado de São Paulo. “Com a integração de ambos, os modelos de previsão de cheias e de inundações na cidade serão otimizados, ou seja, haverá um aumento da eficácia do sistema de alerta.”

O radar foi construído pela empresa francesa Novimet e doado à USP pelo Ministério das Finanças e Contas Públicas da França, em parceria com a USP. O governo francês investiu 860 mil euros, incluindo o desenvolvimento de um software para fazer previsões de inundações. A FCTH investiu R$ 800 mil para dar suporte à Poli-USP e ao Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da USP no projeto.

Vitrine. O governo francês financiou 75% do projeto por meio de um acordo de cooperação em projetos no setor tecnológico, assinado com o governo paulista, de acordo com o cônsul-geral da França em São Paulo, Damien Loras.

"Temos uma antiga história de cooperação entre a França e São Paulo e o objetivo desse acordo era desenvolver projetos concretos, em especial no setor tecnológico. A meteorologia é particularmente forte na França, com empresas de grande porte. Sabemos que o Brasil é uma vitrine para tudo o que é ligado ao clima. É importante para nós demonstrar a qualidade das nossas tecnologias no Brasil", explicou Loras.

Segundo Loras, o projeto não tem apenas interesse científico, mas tem também importância para melhorar a condição de vida da população paulistana. "O radar tem um algoritmo muito possante, que permite transformar os dados do radar em dados pluviométricos, sem pluviômetros. Haverá também uma plataforma online para explorar esses dados e gerenciar os riscos climáticos - seja para melhor organizar trnasportes públicos, prever inundações ou salvar vidas", disse. 

De acordo com outro coordenador do projeto, Carlos Augusto Morales, professor do IAG-USP, o radar ajudará a prevenir inundações em áreas urbanas, que podem ser causadas por menos de 30 minutos de chuva.

"Com o radar será possível prever para qual região, bairro ou rua a tempestade irá se deslocar. Na medida em que o equipamento for sendo testado e calibrado com as medições da chuva feitas no solo, novas informações serão oferecidas, fornecendo um serviço de utilidade pública para a população”, afirmou.

Pesquisas. Embora se espere que o radar ofereça serviços capazes de prevenir desastres, o instrumento também terá grande importância para a pesquisa e para a formação de especialistas na interpretação dos dados meteorológicos, segundo Morales.

“O radar estimulará projetos de pesquisa e desenvolvimento relacionados com tempestades, efeito urbano da poluição na intensificação de chuvas, inundações e enchentes. Ele também deverá alavancar a primeira escola de radar meteorológico da América do Sul, onde os alunos poderão efetivamente combinar as aulas teóricas com as práticas”, afirmou Morales.

Segundo ele, a carência de mão de obra especializada é um dos principais desafios para o sistema de previsão meteorológica do Brasil. "Hoje, do ponto de vista tecnológico, o sistema de monitoramento instalado no Brasil não deixa nada a desejar em relação aos sistemas americanos, por exemplo. Mas não temos mais que dez pessoas qualificadas para operar os radares. Por isso, muitas vezes os radares captam uma tempestade se aproximando, mas os alertas não são feitos", afirmou Morales.

O antena do novo radar tem cerca de três metros e fica instalada sobre uma torre de 42 metros. Uma sala construída próxima à base da torre abriga os computadores que processam as informações obtidas. Segundo Barros, o radar funciona com a emissão de uma radiação eletromagnética que é refletida pelas gotículas de chuva e retorna à antena.

"A quantidade de radiação que volta à antena determina a intensidade da chuva. O tempo que a radiação leva para retornar determina a distância da chuva detectada", explicou.


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