O adeus a Bento XVI

Gesto inédito em 600 anos põe fim, nesta quinta-feira, ao papado de Bento XVI; pontífice deixa o cargo oficialmente às 16h de Brasília

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

28 Fevereiro 2013 | 10h44

Bento XVI renuncia nesta quinta-feira, 28, abre um período inédito de incertezas no Vaticano e deixa como legado a coragem de expor ao mundo os desafios mais íntimos da Igreja, mesmo que para isso tenha lançado mão de um gesto dramático não visto havia 600 anos.

Nessa quarta, sua despedida pública numa Praça São Pedro lotada foi a síntese de seu pontificado. Falando abertamente, deixou claro que a Igreja atravessou "águas turbulentas" e que por vezes "o Senhor parecia estar dormindo". Mas insistiu em reforçar a mensagem que marcou seu pensamento teológico: nem ele nem cardeais poderosos são os mestres da Igreja - e, sim, Cristo.

A renúncia anunciada dia 11 de fevereiro foi seguida por uma sequência de revelações de novos escândalos, abrindo uma fase conturbada na Igreja, enquanto campanha para eleger um próximo papa já ocorria nos bastidores. Ontem, Bento XVI admitiu que sabia das consequências de sua atitude. "Dei esse passo com plena consciência de sua gravidade", disse. Mas garantiu que a decisão foi tomada com uma "profunda serenidade de ânimo".

A voz que tremia em cinco línguas diferentes diante de 150 mil fiéis em silêncio poderia ser de uma pessoa frágil. Às vésperas de completar 86 anos, porém, o alemão terminou seu pontificado com mais uma mensagem de força e, não por acaso, usando uma passagem da barca de São Pedro no Mar da Galileia para descrever seu mandato. "Houve momentos de alegria e luz, mas tambem momentos difíceis", disse.

"Houve dias de sol e uma brisa leve. Mas também outros em que as águas estavam agitadas, o vento soprava contra e o Senhor parecia que estava dormindo", disse, numa referência às crises envolvendo o vazamento de informações sobre corrupção no Vaticano, polêmicas em relação a declarações que fez sobre o mundo muçulmano, escândalos sexuais e uma disputa de poder que corroeu a Igreja. "Mas eu sabia que o Senhor estava dentro da barca."

Desde que renunciou, Bento XVI falou da Igreja desfigurada, expulsou um cardeal do conclave e alertou para a hipocrisia. Ontem, foi a vez de um adeus simples ao povo e até com ares de confidências. Bento XVI contou que, em 2005 quando foi eleito, questionou o que Deus queria dele e sabia que seria um "peso grande nas costas". "Mas Ele me guiou, esteve perto e o sentia a cada dia", declarou.

Ele também garantiu que não vai voltar à vida pública - um temor de muitos dentro da Santa Sé. "Não abandono a cruz, sigo ao lado do Senhor crucificado, mas de uma nova maneira", disse. E mandou um recado ao próximo papa: "Aquele que assume o Ministério de Pedro não tem mais privacidade".

Criticado por sua falta de carisma, Joseph Ratzinger teve talvez de esperar até o último dia de seu pontificado para estar o mais próximo que já esteve do povo. O teólogo que domina dez línguas ontem foi ovacionado por 150 mil pessoas que lotaram a praça debaixo de um céu azul e demonstraram admiração pela coragem de sua renúncia, enquanto Bento XVI fazia sua última volta com o papamóvel pela praça.

Ao terminar seu discurso, Bento XVI foi aplaudido de pé por cardeais com lágrimas nos olhos e diplomatas emocionados. Entre o povo, gritos de "Viva o papa" e aplausos eufóricos que duraram vários minutos. Apenas três chefes de Estado estavam presentes e todos de países insignificantes - um contraste aos mais de cem líderes que se acumulavam em Roma em 2005 Para o funeral de João Paulo II. Mas foi um adeus que entra para a história do Vaticano e obriga a Igreja a buscar um novo rumo.

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