Epitacio Pessoa/Estadão
Epitacio Pessoa/Estadão

O caminho entre a natureza e a farmácia

Futura fábrica em câmpus da Unesp ajudará a produzir amostras para testar biomedicamentos

Giovana Girardi, Enviada especial / Botucatu

19 Novembro 2018 | 03h00

BOTUCATU - O jardineiro Aparecido Nazaré de Almeida, de 62 anos, nunca foi de se preocupar com possíveis ataques de animais a cada vez que entrava em algum local com mato mais alto. Não foi diferente no começo de abril deste ano, quando foi chamado para limpar um terreno que antigamente havia sido um ferro-velho em Botucatu, interior de São Paulo.

“Não vi, mas havia um enxame no meio dos entulhos. Quando entrei com a roçadeira, elas me quebraram. Veio abelha no braço, no pescoço, no rosto, tomei picada até no couro cabeludo”, conta.

O acidente, que resultou em algo entre 100 e 200 picadas – e uma sensação de estar sendo “induzido ao fogo”, seguida de tontura, fraqueza, redução da pulsação e da temperatura –, tornou Almeida um candidato a um teste clínico que vinha sendo conduzido na Unidade de Pesquisas Clínicas (Upeclin) da Faculdade de Medicina da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Botucatu para um novo produto, um soro antiapílico – justamente para combater os efeitos de veneno de abelha.

A dentista aposentada Vera Alfredo, de 76 anos, conviveu por quase 50 anos com uma úlcera venosa em sua perna que teimava em não fechar. A ferida abriu após uma infecção que ela contraiu ao dar a luz ao primeiro filho, em 1968, quando ela tinha 25 anos. Ela tentou os mais diversos tratamentos, passou por 16 cirurgias, mas nada resolvia.

“Trabalhei por 37 anos, em pé, como dentista, com essa úlcera aberta, tendo de fazer curativos todos os dias. Não podia ir à praia, nunca usei saia, vestido”, lembra. Até um dia ouvir um chamado na TV por voluntários para participarem de um teste clínico também da Upeclin da Botucatu. Estava sendo investigado um novo tipo de tratamento para esse tipo de ferida persistente, o chamado selante de fibrina, a base de veneno de cascavel e sangue de búfalo.

Translacional

Histórias tão diferentes quanto a de Almeida e Vera têm em comum o fato de elas comporem casos de sucesso em uma área ainda pouco avançada no Brasil, a chamada pesquisa translacional, em que ocorre uma convergência entre a ciência básica, do laboratório, à aplicada, com potencial para o desenvolvimento de novos produtos de uso medicinal. Da natureza ao paciente, como costuma resumir os pesquisadores.

Tanto o soro quanto o selante surgiram de pesquisas iniciadas no Centro de Estudos de Veneno de Animais Peçonhentos (Cevap) da Unesp. O soro, há 12 anos, e o selante, há quase 30. Começaram a ser testados como produto já nesta década. E chegaram, até o momento, à fase 2 dos testes clínicos, na qual é avaliada a segurança dos produtos.

O soro foi testado em 20 pessoas vítimas de picadas múltiplas de abelhas, como Almeida. O selante, em 40 pacientes com feridas semelhantes às de Vera. Ainda falta a fase 3, que vai de fato medir a eficácia deles em um número bem maior de pessoas, cerca de 400. E essa é a parte mais difícil.

São poucos os casos de pesquisas brasileiras de substâncias com potencial para se tornarem novos medicamentos – muitas provenientes da rica biodiversidade do País –, que conseguem transpor a bancada do laboratório para as prateleiras das farmácias. Quando isso ocorre, em geral é pelas mãos da indústria farmacêutica estrangeira.

Entre os problemas clássicos de burocracia e falta de recursos, um gargalo importante é a dificuldade de realizar a tal fase 3. Isso porque a produção de amostras para testar o produto em centenas ou milhares de pessoas é complexa e cara e acaba dependendo de parcerias com a indústria.

Os aprendizados dos pesquisadores da Unesp com o soro e o selante trouxeram a oportunidade de abrir um pouco esse caminho. Um convênio fechado entre o Ministério da Saúde e a universidade liberou R$ 11 milhões para a construção de uma fábrica-escola no câmpus de Botucatu para produção de amostras de medicamentos biológicos. A verba já está com a Unesp e a expectativa é que as obras comecem em meados de 2019, com conclusão prevista para dois anos depois.

“Hoje não temos capacidade farmacêutica instalada no Brasil, seja público ou privada. Tanto que temos um déficit na balança comercial de cerca de US$ 15 bilhões. Importamos até novalgina”, afirma o médico infectologista Benedito Barraviera, pesquisador do Cevap.

Para produzir amostras para testes, explica, as empresas farmacêuticas precisam ou criar ou separar uma linha de produção para isso – o que é um risco de perder dinheiro. Com isso, ninguém provê as amostras para os testes provenientes das faculdades.

A expectativa é que a fábrica-piloto preencha justamente essa lacuna. “O objetivo é atender ensaios clínicos, de produtos como os que desenvolvemos aqui e de outros medicamentos biológicos”, complementa o veterinário Rui Seabra, diretor do Cevap e líder das pesquisas. “Por um lado, será possível avançar em estudos que estão na bancada dos laboratórios das universidades. Por outro, vai ajudar a fortalecer e indústria farmacêutica nacional.”

É o Ministério da Saúde que vai encaminhar os futuros clientes. “Existe lá uma demanda reprimida. São vários projetos no Brasil inteiro que hoje não estão em teste clínico por causa desse gargalo da dificuldade de produzir amostras”, afirma Barraviera. A verba obtida até o momento, porém, é só para a construção da fábrica. Como vai se dar a produção é algo que ainda está em aberto.

Abelhas

O soro antiapílico – para combater o efeito do veneno de abelhas – caso se mostre eficaz, será um produto inédito no Brasil para um problema bastante negligenciado. Estima-se que, por ano, ocorram mais de 10 mil acidentes com abelhas no Brasil, com cerca de 50 mortes.

Uma picada, duas, três em geral não apresentam problema, a não ser para pessoas que são alérgicas, mas em ataques múltiplos, como o que sofreu Aparecido Almeida, a quantidade de veneno passa a ser muito alta e pode ser fatal. O veneno promove destruição muscular, podendo levar à falência renal.

O tratamento convencional é bastante hidratação, para proteger o rim, e analgésicos. Mas em caso de falência dos rins, é preciso entrar em diálise.

Quando socorrido no hospital da Faculdade de Medicina de Botucatu, Almeida recebeu o tratamento padrão e também o soro. Ele conta que muito rapidamente se sentiu melhor. Assim como o jardineiro, outros 19 vítimas de ataques múltiplos de abelhas receberam o soro até o dia 31 de julho. Os relatórios agora estão sendo finalizados para serem enviados para a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Nesta etapa da pesquisa o objetivo não é ver eficácia, apenas segurança. Mas, segundo o infectologista Alexandre Naime Barbosa, que coordenou o teste clínico, foi possível observar melhora clínica em todos os pacientes. “Percebemos isso em exames de sangue, nos níveis de uma enzima que indica a destruição muscular. Houve melhora nesse indicador e ninguém teve efeito adverso moderado ou grave, mas ainda é cedo para dizer que o soro de fato funciona”, explica.

Isso só será possível saber na fase 3, quando de 100 a 400 pessoas serão submetidas ao tratamento, em comparação com o procedimento padrão. A expectativa é que essa etapa tenha início em 2020. O soro foi produzido com o Instituto Vital Brasil, parceria que terá continuidade na próxima etapa.

Parceria

O selante, ou cola, de fibrina é resultado da união de enzimas provenientes do veneno de cascavel com o fibrinogênio de sangue de búfalos. A ideia original do medicamento previa o uso de sangue humano, mas foi abortada com o auge da epidemia de Aids no fim dos anos 90. A alternativa foi o búfalo, e a Unesp chegou a ter uma pequena produção, mas problemas de armazenamento acabaram adiando a pesquisa.

Já no início desta década, entrou em cena um produtor agrícola da região. Aristides Pavan, dono de uma das maiores granjas da região de Botucatu, soube que os pesquisadores precisavam de búfalos criados em condições de segurança.

Ele se sensibilizou com a pesquisa por causa de um drama familiar. Sua mãe, assim como Vera Alfredo, teve feridas que não cicatrizavam. “Ela sofreu com isso por muitos anos. Isso me tocou. Fui lá e comprei os búfalos. Hoje tenho um rebanho e mantenho isolados cerca de cem animais que ficam à disposição dos pesquisadores”, conta.

O produto foi testado em fase 2 em 40 pessoas. Na semana passada os pesquisadores enviaram o relatório para a Anvisa. Assim como ocorreu com o soro antiapílico, a análise até este momento foi somente de segurança – caberá à fase 3 comprovar a eficácia. Mas também foi possível notar melhora nas feridas.

Os pacientes foram submetidos a três meses de uso do produto. Em 47,5% deles houve cicatrização e em 22%, redução significativa da área. O caso de Vera é talvez um dos mais simbólicos. “Minha ferida tinha cerca de um palmo, do tornozelo até quase a panturrilha. Sarou totalmente. A perna está cada vez mais bonita.”

Os pesquisadores ressaltam, porém, que ambos os produtos ainda estão em fase de estudos e não estão disponíveis para pacientes. As novas fases de testes clínicos devem ter início somente em 2020.

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