O catolicismo é uma religião de diversidade, diz socióloga

'Catolicismo sempre foi diverso', diz, citando a autorização do Vaticano para o retorno das missas em latim

Carlos Orsi, estadao.com.br,

18 de abril de 2008 | 23h57

Vários grupos católicos descontentes com os rumos atuais da Igreja estão se manifestando nos Estados Unidos durante a visita do papa Bento XVI, incluindo defensores do uso de contraceptivos, do aborto e da ordenação de mulheres. Essa é uma pluralidade normal na história do catolicismo, diz a professora de sociologia das religiões da PUC-SP e coordenadora do movimento Católicas pelo Direito de Decidir (CDD), Maria José Rosário. "O catolicismo sempre foi diverso. O catolicismo sempre foi catolicismos", afirma, citando como exemplo recente a autorização do Vaticano para o retorno das missas em latim.  Na ONU, papa defende respeito pelos direitos humanos Fotos da missa campal em estádio de Washington    Fotos de Bento XVI na Casa Branca   Visita de Bento XVI aos EUA é mais pastoral que política Ela reconhece, no entanto, que há momentos de recrudescimento da ortodoxia - e que o papado de Bento XVI é um desses momentos. "Ratzinger (Joseph Ratzinger, o nome de Bento XVI quando cardeal) foi o grande ideólogo do pontificado de João Paulo II, e traz essa vontade de unificar a religião. Mas o mais normal é que haja grupos divergentes dentro da Igreja Católica", diz. Entre os cristãos protestantes, afirma, a tradição maior é de ruptura em casos de divergência. "São modos diferentes, nenhum necessariamente melhor que o outro". Maria José acredita que grupos que divergem da linha pregada pelo Vaticano, como o próprio Católicas pelo Direito de Decidir - que defende o direito da mulher de optar pelo aborto -, "estão dentro da Igreja de pleno direito". "É mais de se estranhar, no catolicismo, a vontade de homogeneidade e ortodoxia". No Brasil, há menos grupos de católicos organizados para contestar a linha adotada pelo Vaticano. "Não conheço nenhum grupo brasileiro de defesa da ordenação de mulheres, por exemplo", diz Maria José, sugerindo que isso pode ser explicado por diferenças culturais e políticas entre os países. "O catolicismo brasileiro sempre foi mais aberto. A forma de viver a fé no Brasil é muito livre". Não por acaso A socióloga acredita que não é por acaso que Bento XVI resolveu visitar os Estados Unidos num período de campanha eleitoral. Para ela, a opção do pontífice, de passar o dia de seu aniversário - a quarta-feira, 16 - na Casa Branca também manda uma mensagem. "Ele poderia ter passado o dia reunido com a comunidade católica", diz. "Não é inócuo que um papa se desloque até os EUA num período de eleições". O significado dessas escolhas do papa, segundo a socióloga, seria de apoio à agenda da ala mais conservadora do Partido Republicano, do presidente George W. Bush, que condena o aborto e as pesquisas com células-tronco embrionárias. "O papa foi convidado a falar na ONU", lembra Rosário. "Quando Paulo VI (papa de 1963 a 1978) foi convidado à ONU, ele foi à ONU, não à Casa Branca". O presidente da época, 1965, era Lyndon Johnson. 

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