Clayton de Souza/Estadão
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Fernando Reinach
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O começo da desigualdade

Estudo recente liga fenômeno à adoção de tecnologias na agricultura

Fernando Reinach, *

09 Dezembro 2017 | 02h00

Uma das características de nossas civilizações é a disparidade de bens materiais. Poucos possuem muito e muitos possuem pouco. Esse acúmulo de riqueza é uma peculiaridade da nossa espécie. Formigas, esquilos, zebras e flamingos ou acumulam para o bem comum, ou acumulam de maneira homogênea ou simplesmente não acumulam. Animais que não acumulam sobrevivem com a crença de que o estoque no meio ambiente é suficiente. 

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Cinquenta mil anos atrás nossos ancestrais se comportavam dessa maneira. Viviam em pequenos grupos, caçando animais e colhendo vegetais. Seu estoque era o meio ambiente. Mas isso mudou radicalmente nos milênios seguintes. Quando inventamos a escrita e a história começou a ser registrada, já encontramos a maioria dos seres humanos em grandes impérios como no Egito, com um pequeno número de nobres ricos e uma infinidade de pobres ou escravizados. Foi entre esses dois pontos no tempo que surgiu a desigualdade.

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Estudar o surgimento da desigualdade, um processo que ocorreu quando não havia história escrita, é difícil. Muitos cientistas tentaram medir o acúmulo de riqueza ao longo desse período. Usaram a quantidade de artefatos enterrados, a quantidade de objetos valiosos e outras medidas indiretas. Os resultados foram inconclusivos.

Mas, agora, um novo estudo teve sucesso. Eles mediram a variação no tamanho das habitações em diferentes culturas pré-históricas. No mundo moderno, quanto mais rica uma família, maior sua casa. É razoável supor que isso foi verdade no passado. 

Foi com base nessa premissa que os cientistas fizeram um censo do tamanho das moradias em 62 sítios arqueológicos espalhados por América do Norte, América Central, Europa, Oriente Médio e China. Os mais antigos cobrem épocas que vão de 11 mil anos atrás até 2 mil anos atrás no Oriente Médio, na Europa e China. Nas Américas, os sítios mais antigos têm 3 mil anos e os mais recentes, 300 anos.

Como as habitações geralmente não são preservadas, o que se mediu foi a área dentro das fundações em cada vila ou cidade e a época em que foram construídas. Com base na área de cada casa foi possível calcular um índice de desigualdade da vila. No caso foi usado o índice de Gini, o mesmo usado para medir desigualdade hoje em dia. Esse índice tem valor de zero quando todos possuem exatamente a mesma riqueza (casas idênticas) e vai até o valor de 1,0 quando todos os bens são acumulados por uma única pessoa (o que é praticamente impossível de ocorrer).

Calculados os índices, os cientistas construíram um gráfico mostrando como variam ao longo do tempo. O que fica óbvio é que o índice sobe gradativamente em todas as regiões do mundo, passando de aproximadamente 0,2 para 0,4 durante um período. Para poder comparar melhor os dados de diferentes continentes, o eixo de tempo no gráfico foi ajustado para se iniciar 1 mil anos antes da chegada da agricultura no continente até 6 mil anos após a chegada da agricultura. Isso porque a agricultura chegou aproximadamente 5 mil anos mais tarde nas Américas. 

Feito esse ajuste fica claro que em todos os continentes, mil anos depois da chegada da agricultura, o índice de Gini aumenta rapidamente. Ou seja, as diferenças entre os tamanhos das casas aumentam rapidamente. Além disso, na Europa, na Ásia e no Oriente Médio, depois desse primeiro aumento surge um segundo aumento no índice que continua a crescer até atingir em muitas áreas o valor de 0,6. O interessante é que esse segundo aumento só ocorre nas cidades que tiveram acesso a animais domesticados, como cavalos e vacas.

Esses resultados demonstram que foi a introdução da tecnologia agrícola, ou seja, a domesticação dos vegetais, que mudou nosso estilo de vida e permitiu o acúmulo desigual de riquezas. Mostra também que a introdução de uma segunda tecnologia, a dos animais domésticos, levou a uma segunda onda de aumento na desigualdade. Esse estágio final de desigualdade, de 0,6 no índice de Gini, equivale ao encontrado hoje em grande parte do planeta. Fica a questão: a desigualdade é intrínseca à adoção de tecnologias?

MAIS INFORMAÇÕES: GREATER POST-NEOLITIC WEALTH DISPARITIES IN EURASIA THAN NORTH AMÉRICA AND MESOAMERICA. NATURE, VOL. 551, PÁG. 619 (2017)

*FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

 

 

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