O dilema das onças sem teto

Chegam hoje a São Paulo três onças pintadas, transferidas de Manaus pelo Instituto de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Duas seguem para o zôo de Limeira, no interior do Estado, onde serão exibidas ao público, e uma vai para a Associação Mata Ciliar, em Pedreira, na região de Campinas, uma entidade ambientalista especializada na reprodução de felinos em cativeiro.As três onças estavam há 4 anos na gerência do Ibama Amazonas, que não conseguia localizar um recinto adequado para elas, porque quase todos os zôos do Brasil já estão superlotados. Duas delas foram apreendidas ainda filhotes, nas mãos de particulares e a terceira já nasceu em cativeiro. Com a liberação do recinto que ocupavam em Manaus, duas outras onças apreendidas vão para o Ibama, deixando as jaulas inadequadas ? com apenas 60x60 cm ? em que eram mantidas.?As pessoas pegam filhotinhos para criar, mas eles logo crescem e ficam agressivos ou sua manutenção fica muito cara, então acabam entregando para o Ibama ou para zôos?, relata José Leland Barroso, gerente executivo do Ibama-AM. ?O problema é que existe uma superlotação de onças em cativeiro e fica difícil arrumar um recinto adequado para elas, que também não podem ser reintroduzidas no seu habitat natural porque já perderam (ou nunca adquiriram) o hábito de caçar animais silvestres para comer e não conseguem se readaptar?.Soltar os grandes felinos criados em cativeiro também ofereceria risco à população, ainda segundo Leland. Ao contrário das onças em estado selvagem, que não se aproximam das zonas urbanas e temem o homem, os felinos de cativeiro não têm medo e poderiam buscar presas fáceis entre as pessoas, atacando sobretudo crianças.Leland confirma que existem muitos casos de felinos em residências, na Amazônia, e espera que este exemplo demonstre ?os danos causados ao meio ambiente e aos cofres públicos com esta prática?. No seu habitat, as onças, como a maioria dos predadores, têm a função de controlar as populações de suas presas, caçando os menos aptos. Sua ausência pode causar explosões demográficas, como a de capivaras, hoje observada nas regiões de florestas muito fragmentadas do Sul e Sudeste. Quanto aos custos, só a transferência das onças para São Paulo ficou em torno de R$10 mil, entre medicamentos (para sedação dos animais), jaulas e passagens aéreas, sem contar a manutenção em cativeiro, durante estes 4 anos.

Agencia Estado,

27 de abril de 2002 | 13h34

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