O fim do homem de Flores

Em 2004, quando os cientistas anunciaram a descoberta do Homo floresiensis, a humanidade deu asas à imaginação. Nosso novo primo, cujos ossos haviam sido descobertos na caverna de Liang Bua, na Ilha de Flores, Indonésia, eram minúsculos. Os adultos mediam 1 metro de altura e pesavam 25 quilos. Não demorou para eles serem apelidados de Hobbits, os anões do livro de J. R. R. Tolkien.

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

23 Abril 2016 | 05h00

Impressionou-me a ideia de esses minúsculos humanoides terem existido até quase o presente, entre 100 mil e 12 mil anos atrás. Como o Homo sapiens chegou à Indonésia aproximadamente 50 mil anos atrás, fiquei imaginando nossos ancestrais chegando em suas canoas primitivas e encontrado uma tribo inteira de uma outra espécie de hominídeos, pequenos e inteligentes. Fiquei imaginando essas duas espécies, convivendo na mesma ilha, por no mínimo 30 mil anos. A ideia de que as duas espécies teriam convivido foi reforçada pelo mito dos Ego Gogo que circula entre os Nage, uma tribo que habita a ilha. Esse mito conta a história de pequenos anões peludos, que falavam uma língua incompreensível e viviam nas cavernas da ilha.

Nesses últimos 12 anos muita coisa aconteceu. Surgiram várias teorias para explicar a existência desses primos minúsculos. As escavações na caverna de Liang Bua continuaram e agora nos revelaram uma nova surpresa. As descobertas de 2004 foram feitas perto da entrada da caverna. Foram escavados quatro locais, pequenos quadrados de 3 por 3 metros. Os ossos foram encontrados entre 4 e 7 metros de profundidade. À medida que os cientistas escavam, encontram camadas de materiais que são removidas e caracterizadas. Assim, a camada superior, onde foram encontrados os ossos, foi datada de 12 mil anos atrás. As camadas mais profundas foram datadas de 100 mil anos. Foi assim que os cientistas determinaram o período em que os hominídeos habitaram a caverna.

Agora, cavando um número maior de locais no interior da caverna, os cientistas descobriram uma organização diferente das camadas. No interior da caverna, a camada mais recente, acima dos esqueletos mais superficiais, é mais grossa. Comparando a estratigrafia (a organização das camadas), os cientistas concluíram que na entrada grande parte de uma camada superficial está faltando, o que indica que deve ter havido erosão ou algum fenômeno que removeu parte dessa camada. Isso não ocorreu no interior da caverna, onde o piso é mais protegido. 

Ao datarem as camadas logo acima dos ossos mais superficiais na região do interior, os cientistas descobriram que eram de 60 mil anos atrás, e não de 12 mil anos. Eles concluíram que na entrada da caverna a erosão colocou material relativamente recente sobre os ossos, o que mascarou os dados. 

Esses novos achados reduzem bastante a possibilidade de os homens modernos terem convivido na Ilha de Flores com seus primos nanicos durante 30 mil anos. Agora parece provável que o homem de Flores desapareceu aproximadamente quando o homem moderno chegou à ilha. Se antes podíamos imaginar um ambiente idílico no Pacífico com duas espécies convivendo pacificamente, agora somos forçados a imaginar que, talvez, a chegada do homem moderno tenha alguma relação com o desaparecimento do Homo floresiensis. Infelizmente essa interpretação é mais condizente com o que ocorreu em outros ambientes: quando o Homo sapiens chega, outras espécies se extinguem. Afinal já éramos e ainda somos o mais eficiente dos predadores.

MAIS INFORMAÇÕES: REVISED STRATIGRAPHY AND CHRONOLOGY FOR ‘HOMO FLORESIENSIS’ AT LIANG BUA IN INDONESIA. ‘NATURE’, VOL. 532, PÁG. 366 (2016)

FERNANDO REINACH É BIÓLOGO

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