Imagem Fernando Reinach
Colunista
Fernando Reinach
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O 'Gênesis' e o baculum

Uma interpretação alternativa para o mito da criação descrito na Bíblia

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

30 Dezembro 2017 | 03h00

Nossos ancestrais viviam dos vegetais que colhiam e dos animais que caçavam. Analisando os ossos de animais encontrados nos acampamentos daquela época é possível identificar os animais que eram caçados. Esses animais eram completamente desossados e toda a carne era consumida. Marcas de instrumentos feitos de pedra lascada aparecem nos ossos. Os ossos propriamente ditos também eram usados para confeccionar instrumentos como cabos para lâminas e anzóis. Tudo isso leva a crer que nossos ancestrais tinham um bom conhecimento prático dos componentes do esqueleto de suas presas.

Na maioria dos animais caçados naquela época, como pequenos mamíferos e ursos, e até mesmo nos lobos que se transformaram nos cães domésticos, o esqueleto de exemplares dos dois sexos, são muito semelhantes. Entretanto existe um único osso que está presente nos machos, e não existe nas fêmeas. Esse osso é chamado de baculum. 

Em um cão grande, esse osso tem aproximadamente 10 centímetros de comprimento e quase 1 centímetro de diâmetro. Esse osso também é chamado de osso peniano. Ele está localizado no interior do pênis do animal e durante a ereção tem a função de dirigir o pênis para o exterior do abdome e mantê-lo ereto. A maioria dos mamíferos placentários possui esse osso, apesar de existirem exceções, como o cavalo. 

Nos primatas, só existem dois grupos de macacos que não possuem o baculum. Nos nossos parentes mais próximos, como o gorila, o chimpanzé, e os bonobos, o baculum está presente. O ser humano é uma exceção pois não possui baculum. No nosso caso, o esqueleto de uma mulher e o de um homem possuem exatamente os mesmos ossos, e só é possível saber o sexo de um esqueleto analisando o tamanho e a proporção entre os ossos. 

Nossos ancestrais mais antigos, até 10 milhões de anos atrás, possuíam o baculum, que desapareceu ao longo do tempo. Sabemos é que os hominídeos mais recentes já não possuíam o baculum. É possível que os homens primitivos tenham reparado a diferença entre o esqueleto dos animais que caçavam e os esqueletos humanos. Ou seja, tenham reparado que nos animais que caçavam esqueletos de fêmeas e machos podem ser identificados pela presença do baculum e essa distinção não é possível nos humanos.

Foi com base nessas conjeturas que um biologista especializado em evolução e um estudioso de textos hebraicos antigos propuseram uma interpretação alternativa para o mito da criação descrito na Bíblia. No Gênesis é relatado que, depois da criação de Adão, uma costela foi retirada e a partir dela Deus criou Eva. Eu aprendi assim, e me lembro bem do dia que descobri que o homem e a mulher têm exatamente o mesmo número de costelas.

Analisando os textos em hebraico antigo do velho testamento, esses cientistas observaram que a palavra que foi traduzida como costela (tzela) também é usada ao longo da Bíblia para descrever a parte lateral de uma montanha, a estrutura que suporta um edifício, o suporte de uma árvore ou as placas de madeira usadas para construir uma porta. Ou seja, tzela poderia denominar outro osso do corpo do homem. Além disso, em outra passagem do Gênesis está descrito que Deus, depois de retirar o osso, fechou a carne de Adão, deixando uma cicatriz. 

O que esses pesquisadores sugerem é que talvez o mito original descreva a retirada do baculum de Adão (e não uma costela) e Eva teria sido produzida a partir do baculum. E a cicatriz deixada em Adão corresponda ao raphé, aquela cicatriz que existe na parte inferior no pênis humano. O raphé surge durante a formação do pênis e não existe nas meninas. 

Essa possível interpretação do texto do Gênesis não pode ser comprovada, mas ela explica alguns fatos. Primeiro, o número idêntico de costelas nos dois sexos. Segundo, a falta do baculum no homem e sua presença nos machos de diferentes espécies conhecidas por nossos ancestrais. Terceiro, a presença do raphé no pênis dos homens, que é exatamente a cicatriz que seria deixada se um cirurgião decidisse retirar um baculum do pênis de um animal. 

Finalmente o baculum, ao contrário da costela, é relacionado à reprodução da espécie. Além disso, essa explicação tem viés feminista. Deus ao criar Eva a partir do baculum de Adão não só tornou Adão mais semelhante à Eva (ambos sem baculum), mas tornou o homem mais dócil e frágil, incapaz de contar com um osso para garantir sua ereção.

MAIS INFORMAÇÕES: CONGENITAL HUMAN BACULUM DEFICIENCY. AMERICAN JOURNAL OF MEDICAL GENETICS, VOL. 101, PÁG. 284 (2001)

É BIÓLOGO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.