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O prazer de um cientista mediano

Não é um prazer ver seu filhote nos holofotes? Foi o que aconteceu nesta semana

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

05 Agosto 2017 | 03h00

O prazer de um grande cientista é fácil de imaginar, mas de onde vem o prazer de um cientista mediano? Na semana passada, vivi um deles. A notícia da semana foi a demonstração de que é possível editar de maneira segura o genoma humano, o que abre possibilidades enormes, e dilemas éticos do mesmo tamanho. O que chamou minha atenção foi o gene usado para demonstrar que isso é possível, o MYBPC. Os cientistas poderiam ter usado qualquer dos milhares de mutações conhecidas, em centenas de genes, mas por alguma razão usaram o MYBPC, minha cria de 37 anos.

Em 1980, fui iniciar meu doutoramento nos Estados Unidos. Meu primeiro projeto foi caracterizar anticorpos que teoricamente se ligavam a uma proteína conhecida como miosina, um dos principais componentes de qualquer músculo. Mas os anticorpos eram estranhos, pareciam não identificar todas as moléculas de miosina, somente uma pequena fração delas. Eu passava semanas dentro de uma câmara fria, purificando a miosina do músculo peitoral de galinhas, e quanto mais pura a miosina menos o anticorpo se ligava. 

Levou um ano para descobrir que o anticorpo não se ligava à miosina, mas a uma proteína de músculo que contaminava as preparações de miosina. Nessas preparações em que a miosina era o componente principal (que chamávamos de A), havia um contaminante que chamávamos de B e um terceiro que chamávamos de C. Meu anticorpo se ligava ao componente C. Essa minúscula descoberta foi minha primeira conquista. E meu orientador decidiu que eu deveria descobrir a função desse contaminante. Mas o contaminante precisava de um nome, e como só sabíamos que ele se ligava à miosina usamos um nome óbvio, Myosin Binding Protein C (MYBPC), que acabou “pegando”.

Nos anos seguintes, descobrimos que existiam diferentes forma de MYBPC, uma nos músculos brancos (o filé do frango), outra nos músculos escuros (coxa) e uma terceira no músculo cardíaco. Ao longo dos anos, descobrimos onde essas diferentes formas da MYBPC se localizavam no músculo e quando elas apareciam durante o desenvolvimento. O passo seguinte foi clonar os genes que codificavam essas proteínas, tanto as formas presentes no genoma da galinha quanto no genoma humano. 

Em 1993, todo esse trabalho estava terminado e a MYBPC ficou conhecida, mas sua função permanecia um mistério. Em 1995, a forma cardíaca desse gene foi isolada. Decepcionado por não ter descoberto sua função, abandonei a MYBPC ao seu destino.

Na semana passada, com a súbita fama da MYBPC, fui ler o que tinham descoberto sobre minha filhota entre 1993 e 2017. A primeira decepção é que ainda não se sabe sua função. Mas ela reapareceu no campo das doenças cardíacas. 

Algumas pessoas sofrem de hipertrofia cardíaca, quando o coração vai aumentando de tamanho ao longo do tempo. Isso ocorre porque o coração se exercita mais que o habitual. Uma causa é a existência de algo errado no sistema circulatório que exige mais esforço do coração, outra é que o coração propriamente dito é menos eficiente e precisa trabalhar mais para bombear o sangue. Entre os casos em que o coração é menos eficiente, existe um subgrupo de pessoas em que esse problema é hereditário. Nas últimas décadas, os cientistas foram atrás dos genes responsáveis por esse defeito. O que descobriram é que a maior parte desses pacientes possui mutação no gene da miosina que torna menos eficiente o funcionamento do músculo cardíaco. 

Mas outro grupo, muito menor, tem um defeito no gene da MYBPC. Esse grupo de pessoas é extremamente pequeno, hoje são menos de 400 pessoas identificadas. Mas o fato é que defeitos na MYBPC entraram na lista de mais de 10 mil alterações genômicas que causam doenças. É um nada, uma doença em 10 mil, com somente 450 pacientes identificados, mas a causa é minha querida MYBPC.

Quando os cientistas decidiram testar essa nova metodologia para a correção de doenças genéticas, que teoricamente pode ser usada para corrigir qualquer um dos 10 mil erros conhecidos, tinham de escolher um erro, em algum gene, para tentar corrigir. Escolheram um erro no gene da MYBPC. E essa semana a MYBPC ficou famosa. 

Em todos os experimentos foram usados espermatozoides de uma pessoa que possui uma mutação nesse gene. E a MYBPC vai entrar para a história como o primeiro gene humano modificado em um embrião de maneira segura e reprodutível. 

Não é um prazer ver seu filhote nos holofotes? Esse é o tipo de prazer que um cientista mediano pode ter. Usando a velha metáfora, é o prazer de ver que o tijolinho que você assentou faz parte de algo potencialmente importante. Fiquei feliz.

MAIS INFORMAÇÕES: CORRECTION OF A PATHOGENIC GENE MUTATION IN HUMAN EMBRYOS. NATURE DOI:10.1038/NATURE23305 2017

* É BIÓLOGO

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