O que fazer, além de tirar terra do Tietê

O coordenador do Núcleo Pró-Tietê, Mário Mantovani, criticou o início das obras de rebaixamento da calha do Tietê, entre o Cebolão e a Ponte do Imigrante Nordestino, inaugurada ontem pelo governador Geraldo Alckmin. ?O governo estadual sozinho jamais conseguirá limpar o rio. Para acabar com enchentes e despoluir o Tietê, não basta tirar terra e fazer piscinões. É preciso conversar com as prefeituras da Grande São Paulo e com a população, e isso não foi feito com o devido cuidado.? Segundo Mantovani, o leito do Tietê é uma radiografia do que há de errado na região metropolitana. ?O despejo de lixo em córregos, as moradias nas margens do rio, o esgoto doméstico, a falta de drenagem urbana são fatores que fazem o Tietê ser esse rio triste?, afirma. ?Por isso não basta rebaixar a calha, é necessário combater as causas da poluição e das enchentes.? Segundo Mantovani, esses problemas têm duas origens: uma delas é a falta de planejamento urbano. ?A outra é cultural, é o costume de se jogar lixo não só no Tietê, como nos córregos que o alimentam.? Como o planejamento urbano é competência de cada prefeitura, Mantovani acredita que o governo deveria pedir aos municípios da região metropolitana de São Paulo a elaboração de seus planos diretores. ?Não adianta haver planejamento apenas na capital: a Grande São Paulo tem 39 municípios.? Apelo à participação popular Para Mantovani, o mais importante é a participação popular. Ele faz parte do Comitê de Bacias, que estudou o Tietê e propôs algumas soluções adotadas pelo Estado, mas acredita que faltou uma campanha intensa para que a população participasse do projeto. Segundo ele, a população é a única via para unir os municípios da Grande São Paulo. ?Estamos num ano eleitoral e é difícil acreditar que tantas prefeituras tenham a disposição de se reunir para discutir com o governo?, afirma. ?Por isso é necessário que haja pressão popular para que as Prefeituras se mobilizem, pensem num projeto urbano e façam cumprir a legislação já existente?, continua. ?Hoje, as várzeas não são devidamente fiscalizadas, o que facilita a proliferação de construções irregulares. Isso devasta a mata ciliar e faz com que a terra seja continuamente levada ao leito do rio.? Para Mantovani, a participação popular é também um fator fundamental para gerar uma mudança cultural, ampliando a consciência ecológica da população. ?Se o povo continuar excluído da discussão, com está agora, ele sequer compreenderá o projeto e continuará agredindo o rio?, prevê. ?Essa agressão não é apenas o ato de jogar pneu e outras porcarias no rio, mas toda a maneira de tratar o lixo?, pondera. ?A gente não pode, por exemplo, contratar esses carreteiros picaretas para levar o lixo embora, pois não sabemos o destino final do entulho. E precisamos ter essa preocupação, cada cidadão precisa pensar nisso. Se damos o lixo para qualquer um, ele pode também acabar em qualquer lugar. Geralmente acaba num córrego que abastece o Tietê.? ?Essa falta de discussão, aliás, é um dos principais problemas do empréstimo japonês ao governo que possibilitou o início do rebaixamento da calha: diferentemente do BID, os japoneses não exigiram que o projeto fosse estudado junto com a população?, afirma. ?Por isso, apesar do início das obras, as reuniões do Comitê de Bacias continuam?, diz Mantovani. Para participar, é necessário entrar em contato com a SOS Mata Atlântica, no telefone (0xx11) 3887-1195.

Agencia Estado,

11 de abril de 2002 | 10h44

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