O segredo da genialidade

Imagine só: O que é que o Ronaldo tem que os outros jogadores não têm? Ele tem duas pernas, dois braços, um cérebro, dois olhos e duas orelhas como todo mundo. A única diferença, ultimamente, parece ser uma barriga com circunferência acima do normal - o que não é exatamente uma vantagem. E, ainda assim, o cara consegue ser um Fenômeno dentro de campo. Mas como?  Estou falando de futebol porque é um exemplo com o qual todos os brasileiros podem se relacionar. A pergunta mais profunda, de cunho científico, na qual pretendo chegar é: Qual é o segredo da genialidade? Qual é a diferença entre um gênio da bola e um jogador "normal"? O que faz algumas pessoas serem tão melhor do que outras em algumas tarefas? Afinal, pense bem: Centenas de outros jogadores passaram pelos mesmo campinhos de terra, pelas mesmas escolinhas, pelos mesmos clubes, pelos mesmos técnicos, fizeram exatamente os mesmos exercícios, treinaram exatamente com a mesma bola e com os mesmos companheiros que o Ronaldo, mas só ele virou o Fenômeno. Por quê? (E se você não é fã do Ronaldo, imagine então quantos jogadores não passaram pelos mesmos técnicos e fizeram exatamente os mesmos treinamentos que o Pelé ao longo de sua carreira no Santos. Muitos tornaram-se jogadores excepcionais, sem dúvida, mas só ele virou o Rei. Por quê?) Alguém deveria fazer uma autópsia nesses caras. Será que eles têm uma musculatura especial, um pé com mais neurônios, um olho na nuca ou algum tipo de percepção sensorial superdinâmica que lhes permite enxergar o jogo de uma maneira mais inteligente e pensar mais rápido do que todos os outros jogadores?  Certamente que não. É claro que eles conseguem "enxergar" o jogo melhor e têm mais habilidade do que a maioria dos outros jogadores. Mas como explicar isso cientificamente? Não sei. Já aviso, infelizmente, que essa coluna será um texto de muitas perguntas e quase nenhuma resposta.  A mesma indagação sobre a genialidade no esporte pode ser feita para qualquer outra profissão ou habilidade. O que faz um publicitário, um pintor, um compositor, um lutador de kung fu, um engenheiro ou um físico ser tão melhor do que os outros?  Muita gente já se perguntou se Einstein tinha um cérebro "especial", por exemplo. Talvez o cérebro dele fosse maior, tivesse mais neurônios, um formato diferente ou qualquer outra coisa fora do comum que pudesse explicar sua genialidade. Mas nunca encontraram nada. Até onde se sabe, anatomicamente, o cérebro de Einstein era um cérebro como outro qualquer. Igualzinho ao das centenas de outros rapazes que estudaram com os mesmos professores e leram os mesmos livros que ele na escola, mas não descobriram a relatividade nem ganharam um prêmio Nobel por causa disso. Todo mundo tem algum talento para alguma coisa. Ou até vários talentos. Mas a maneira como eles são expressados, imagino eu, deve depender, como sempre, de uma interação entre os genes e o ambiente que são particulares a cada indivíduo. Não adianta ter talento para jogar tênis se você nasce numa comunidade ribeirinha da Amazônia e nunca vai ver uma quadra de tênis na vida! Adianta? Se Darwin não tivesse sido convidado para embarcar no Beagle, se tivesse ficado na faculdade e seguido carreira eclesiástica, como desejava seu pai, ele provavelmente não teria descoberto a evolução por seleção natural. Se Einstein tivesse nascido numa favela em São Paulo, em vez de Ulm, na Alemanha, talvez ele tivesse acabado vendendo balinhas no farol ou empacotando compras num supermercado. Vai saber. Imagine quantos talentos não são desperdiçados no nosso país por falta de oportunidades, de qualidade de vida e de uma educação decentes. Certamente há muitos Einsteins, Picassos e Bruce Lees em potencial perdidos por aí - e não só Ronaldos e Pelés -, que nunca terão uma chance para se expressar. Todo mundo tem duas pernas, dois braços e um cérebro. Todo mundo tem potencial para ser bom em alguma coisa. Mas enfim ... se a gente soubesse como se faz um gênio, o Corinthians não precisaria gastar milhões para contratar um jogador de 31 anos, 91 quilos e com três operações no joelho. Bastaria seguir a receita e produzir um novo Fenômeno, que sairia muito mais barato. E quem sabe eu poderia comprar um livro do Bruce Lee, copiar as figurinhas, e virar um mestre das artes marciais. Pense nisso a próxima vez que o Ronaldo entrar em campo.

12 de março de 2009 | 15h14

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