Lucas Jackson/Reuters
Lucas Jackson/Reuters

O segredo para Stephen Hawking sobreviver pode ter sido o senso de humor

Físico viveu até os 76 anos com um tipo de esclerose lateral amiotrófica de evolução lenta; em diversas ocasiões ele disse que o trabalho e o humor o mantiveram vivo

Kyle Swenson, Washington Post

14 Março 2018 | 12h21

Em junho de 2014, o comediante John Oliver sentou-se com renomado físico teórico Stephen Hawking para uma entrevista. "Você afirmou que poderia haver um número infinito de universos paralelos", afirmou o anfitrião do programa "Last Week Tonight" da HBO, antes de perguntar a Hawking: "Isso significa que existe um universo lá fora onde eu sou mais inteligente do que você?"

"Sim", Hawking respondeu de sua cadeira de rodas, seus lábios se dobrando em um leve sorriso. "E também um universo onde você é engraçado."

Hawking morreu no início desta quarta-feira, 14, em sua casa na Inglaterra aos 76 anos. Ao longo de sua carreira como um dos mais reconhecidos pensadores do Cosmo no mundo, ele regularmente se atirou na seara cômica da cultura pop com participações em programas como Os Simpsons e "Late Night with Conan O'Brien".

Essas aparições alinharam-se com um espírito de graça que definiu a vida pessoal de Hawking tanto quanto seu trabalho teórico sobre o universo. O humor, no entanto, não era apenas um lado de sua personalidade, mas uma chave para superar a doença neurodegenerativa motora contra a qual lutou desde 1963.

"Manter uma mente ativa tem sido vital para minha sobrevivência, assim como manter o senso de humor", disse Hawking em um documentário de 2013. "Eu provavelmente sou mais conhecido por minhas aparições nos Simpson e em 'The Big Bang Theory'  do que eu sou pelas minhas descobertas científicas", brincou.

Esse humor foi adotado contra um prognóstico terrível. Aos 21 anos, Hawking foi diagnosticado com uma condição semelhante à esclerose lateral amiotrófica (ELA), também conhecida como doença de Lou Gehrig. De acordo com a Associação para ELA, "metade de todas as pessoas afetadas por ELA vive pelo menos três ou mais anos após o diagnóstico. 20%  vivem cinco anos ou mais e só 10% viverão mais de dez anos".

Ele logo soube que a doença eventualmente desligaria suas funções motoras, deixando-o incapaz de falar e de se mover sem uma cadeira de rodas. Médicos inicialmente disseram que ele estaria morto em dois anos. Sua condição, no entanto, provou ser uma versão rara e de ação lenta.

Mas Hawking lutou contra o seu estado físico em constante piora, elevando-se à posição de célebre professor de matemática na Universidade de Cambridge e alterando a concepção popular da física com seu bestseller de 1988, "A Breve História do Tempo".

No entanto, o fato de Hawking ter sobrevivido ao mais de 70 anos é notável por seus próprios méritos. "Ele é conhecido como um dos pacientes mais longevos, se não o mais longevo, sobreviventes com ELA na história", escreveu o International Business Times em 2012. "O que aconteceu com ele é apenas espantoso", disse Leo McCluskey, diretor médico da Universidade do Centro de ELA da Pensilvânia, à revista Scientific American naquele mesmo ano. "Ele certamente é um ponto fora da curva."

Em uma sessão de perguntas e respostas em janeiro de 2016, Hawking creditou ao seu trabalho e seu senso de humor os motivos para mantê-lo vivo.

"Quando eu fiz 21 anos, minhas expectativas foram reduzidas para zero", disse ele. "Era importante que eu passasse a apreciar o que eu tinha feito... Também é importante não se irritar, não importa o quão difícil é a vida, porque você pode perder toda a esperança se você não puder rir de si mesmo e da vida em geral."

As aparições de Hawking na televisão sempre se valeram dessa mistura de auto-depreciação e diversão. "Sua teoria de um universo em forma de um donut é intrigante, Homer", disse Hawking ao pai dos Simpsosn em um episódio de 1999. "Eu posso ter de roubá-la."

"Uau", respondeu Homer. "Eu não posso acreditar que alguém que eu nunca ouvi falar a respeito saia com um cara como eu".

"Professor Hawking, é uma honra e um privilégio conhecê-lo, senhor", disse Sheldon, um dos personagens nerds de "The Big Bang Theory", em um dos sete episódios em que ele apareceu. "Eu sei", Hawking respondeu.

Ele exibiu a mesma inteligência fora da tela. No Twitter, na noite de terça-feira, 13, Robert A. McNees, professor associado do Departamento de Física da Universidade Loyola, Chicago, lembrou-se de passar uma noite de "jantar e bebidas, depois karaokê" com o renomado pensador. No final da noite, McNees disse que ele perguntou até que horas Hawking estava planejando ficar na rua.

"Até as baterias da cadeira de rodas baixarem", o professor brincou, de acordo com McNees.

Em 2009, Hawking fez uma festa de champanhe em Cambridge. Garrafas foram derramadas, balões espalhados pela sala. Mas houve uma pegadinha: Hawking só enviou os convites depois da festa. Não era para seus contemporâneos, como ele explicou em um vídeo do YouTube, mas para futuros viajantes no tempo.

"Estou esperando que cópias do convite de uma forma ou [O CONVITE] outra sobrevivam por muitos milhares de anos", explicou Hawking no vídeo. "Talvez um dia alguém que viva no futuro encontrará a informação e use uma máquina do tempo de buraco de minhoca para voltar para minha festa, provando que a viagem no tempo será um dia possível."

Mas ninguém apareceu na festa.

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