O terceiro sexo

“Diferenças sexuais de morfologia, fisiologia e comportamento são causadas não somente por genes ligados ao sexo, mas também pelos níveis de hormônios sexuais que circulam no sangue. Portanto, se o componente determinante do sexo mudar do genético para o ambiental, podem surgir organismos que exibem uma mistura de características masculinas e femininas”. Essa sentença, que abre o artigo científico relatado abaixo, parece uma explicação para a complexidade da sexualidade humana, mas na verdade relata o que ocorre em répteis que vivem na Austrália. 

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

18 Junho 2016 | 06h59

O Pogona vitticeps, também chamado de dragão barbado, é um réptil de aproximadamente meio metro que vive nos desertos da Austrália. Na natureza são observados três tipos de animais: os que se comportam como machos e têm cromossomos sexuais masculinos (ZZ), os que se comportam como fêmeas e possuem cromossomos sexuais femininos (ZW) e animais que se comportam como fêmeas e têm cromossomos sexuais masculinos (ZZ). Ao contrário dos mamíferos, em que o macho tem dois cromossomos sexuais distintos (no nosso caso XY), nos répteis são as fêmeas que têm cromossomos distintos (ZW).

Portanto, animais que não têm o cromossomo W podem se comportar como machos ou fêmeas. O que determina seu destino é a temperatura a que é submetido o ovo durante a formação do animal. Se um ovo ZZ for incubado a temperaturas abaixo de 32°C, o animal eclode e vive como macho. Se um ovo ZZ for incubado a temperaturas acima de 32°C, ele vive como fêmea.

Nos últimos anos, cientistas têm tentado entender as diferenças entre esses dois tipos de fêmeas, as que têm cromossomos masculinos (ZZ) e as com cromossomos femininos (ZW). O que se sabe é que ambas são férteis, cruzam com machos, colocam ovos e deixam descendentes. Mas por que dois tipos de fêmeas continuam a existir? 

Essas duas variedades de fêmeas têm sido criadas (manipulando a temperatura de incubação), comparadas entre si e comparadas com os machos. Os cientistas descobriram que as fêmeas ZZ (com cromossomos masculinos) produzem mais ovos do que as fêmeas ZW e têm a morfologia do corpo semelhante à dos machos ZZ. Suas caudas são mais longas e parecidas com as dos machos. Seu peso é maior que o dos machos, mas semelhante ao das fêmeas ZW. Finalmente, sua temperatura corpórea é um pouco maior que a das outras fêmeas, mais parecida com a dos machos. 

Agora os cientistas fizeram uma série de experimentos para descobrir se existem diferenças comportamentais entre esses dois tipos de fêmeas. Quando colocadas em um novo ambiente, as fêmeas ZZ começam a explorá-lo mais rapidamente do que as ZW. Elas também têm menos receio de objetos novos e saem da toca mais rapidamente na presença desses novos objetos. E, quando decidem sair da toca, se movem com maior velocidade.

Esses dados sugerem que essas fêmeas ZZ, produzidas por altas temperaturas, são mais ousadas, correm mais riscos e têm características físicas mais parecidas com as dos machos. Elas realmente são distintas tanto dos machos quanto das fêmeas ZW. Uma espécie de terceiro sexo: fêmeas do ponto de vista reprodutivo, mas com comportamento e características físicas parecidas com a dos machos.

Após essas descobertas, os cientistas passaram a acreditar que a coexistência desses dois tipos de fêmeas deve trazer vantagens à espécie. Provavelmente porque cada fêmea é mais adaptado a uma condição ambiental.

Répteis são imensamente diferentes de seres humanos, mas ao contemplar a complexidade dos mecanismos que determinam o comportamento sexual desses animais, e as diferenças físicas entre os três sexos, não posso deixar de acreditar que a diversidade de nossas opções sexuais faz parte da complexidade que existe em muitos outros seres vivos. São os animais ajudando o ser humano a aceitar seu lugar na natureza.

MAIS INFORMAÇÕES: THE BEHAVIOURAL CONSEQUENCES OF SEX REVERSAL IN DRAGONS. PROC. R. SOC. B VOL. 283 PAG 2017 2016

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