Rafael Arbex/Estadão
Rafael Arbex/Estadão

Prof. W. Besnard: o triste fim do navio pioneiro na Antártida

Em dez anos, destino da embarcação mudou várias vezes, podendo agora ser tombada ou afundada; Ibama diz que barco corre risco de naufragar e impactar fauna local

Priscila Mengue, O Estado de S.Paulo

16 de dezembro de 2018 | 02h00

SÃO PAULO - O navio que protagonizou centenas de expedições científicas brasileiras hoje tem apenas pombos a bordo. Na lateral, ainda traz a inscrição “Universidade de São Paulo”, mas sob uma cobertura de musgo. Próximo à proa, em meio à ferrugem, resta o nome que o tornou referência nacional, “Prof. W. Besnard”, enquanto o mastro sustenta uma bandeira do Brasil desfiada pela metade.

A embarcação foi pioneira na oceanografia civil do País, estando ativa por mais de 40 anos e participando da primeira expedição brasileira à Antártida. Na última década, já aposentado, teve a destinação modificada diversas vezes, desde ser transformado em sucata até ser repassado ao Uruguai, dentre outros.

Em julho, dois anos após ser doado pelo Instituto Oceanográfico da USP à prefeitura de Ilhabela, teve o afundamento decidido em audiência pública, a fim de virar um recife artificial. Um mês depois, contudo, a embarcação teve a abertura de estudo de tombamento aprovada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat), o que dificulta os planos.

Na prática, a embarcação passa a ser provisoriamente tombada até que técnicos do Estado realizem um estudo que será remetido para apreciação pelo Condephaat, o que não costuma levar menos de um ano. No processo, modificações no navio, como restauro e afundamento, precisam ter aval do conselho. 

A decisão é contestada por Ilhabela, sob o argumento de que o valor do navio estava nos itens que foram retirados do seu interior pela USP (como sino e timão, por exemplo) e não seria mais possível recuperá-lo. “Está totalmente degradado”, afirma Ricardo Fazzini, secretário de Desenvolvimento Econômico e do Turismo de Ilhabela.

Segundo a prefeitura, o navio não passa por manutenção desde outubro, pelo encerramento de um contrato terceirizado. A administração municipal diz estar em negociação para retomar o serviço, avaliado em cerca de R$ 50 mil mensais, de acordo com o secretário. “Não era projeto nosso. A gente assumiu com a embarcação naquela situação. Mas tem de dar um fim, estamos continuando o projeto. A gente tinha assumido aquele equipamento já com esse destino”, afirma Fazzini.

Se o Condephaat arquivar o pedido de tombamento, o próximo passo é fazer o licenciamento ambiental da área onde ocorrerá o afundamento, ainda não definida. Em paralelo, também será necessário fazer a descontaminação da embarcação, para retirar componentes que possam causar dano ambiental. 

Prefeitura quer transformar navio em 'parque submarino'

Para Ricardo Fazzini, secretário de Desenvolvimento Econômico e do Turismo de Ilhabela, embora Ilhabela tenha embarcações naufragadas, elas são de difícil acesso para mergulhadores principiantes. No caso do Prof. W. Besnard, a ideia é criar um “parque submarino”, de acesso fácil e a 30 metros de profundidade. 

Atualmente, a Prefeitura detém dívida de cerca de R$ 600 mil com a Companhia de Docas do Estado de São Paulo (Codesp) pelas estadias da embarcação no Porto de Santos, o que está em negociação. O custo mensal é de cerca de R$ 20 mil, de acordo com a Codesp. 

Outra pendência envolvendo o navio é uma notificação enviada em julho para a retirada de Santos. Segundo Ana Angélica Alabarce, analista ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), a embarcação corre o risco de naufragar e causar “impacto ambiental muito maior”. “Ele está em condições terríveis”, afirma. 

‘É o mais icônico da oceanografia brasileira’

Paulo Sumida perdeu a conta de quantas vezes embarcou no navio Prof. W. Besnard em 31 anos de Instituto Oceanográfico da USP, onde hoje é vice-diretor. Quando começou a estagiar na instituição, sentava-se próximo à sala de rádio, que se comunicava diariamente com a embarcação, que estava em uma das viagens que fez à Antártida.

“De manhã cedo, o técnico se comunicava para ver se estava tudo bem. E eu ficava sonhando em um dia ir à Antártida”, lembra ele, que foi seis vezes, mas nenhuma no W. Besnard. A primeira experiência na embarcação foi sem o mesmo glamour: ajudou a passar formol e acondicionar organismos coletados em uma expedição no litoral norte paulista. Até hoje, parte das amostras retiradas em pesquisas são estudadas. “(Atualmente) ele está bem ruinzinho por dentro, tem muita coisa desmontada. Dá um pouco de dó de ver, por fora está descuidado."

A atual diretoria do instituto é favorável a transformar a embarcação em museu, enquanto, a anterior era mais inclinada à ideia de virar um recife artificial.  

(É) um verdadeiro monumento nacional, responsável pela expansão do territorial do nosso País, com os trabalhos científicos na Antártica nos inclui nas decisões sobre aquele continente (...), muitas pesquisas ao largo do Brasil foram realizadas com a participação dele. Ele que merece ter um final nobre e visível para que a comunidade sempre lembre de seus feitos”, escreveu ao Estado, por e-mail, Elisabete Braga Saraiva, diretora do IOUSP.

O tombamento do Prof. W. Besnard foi requerido ao Condephaat por Fernando Liberalli, presidente do Instituto do Mar (Imar) e principal defensor de que o navio se torna um museu. “É o navio mais icônico da oceanografia brasileira."

Segundo Liberalli, pedir o tombamento é a “única alternativa” encontrada para garantir a permanência do navio. “Tomei esse recurso porque querem afundar a qualquer custo o navio. Não tem o que contestar que ele é histórico.”

Ele garante que consegue patrocínio para transportar e recuperar a embarcação, trazendo os itens que foram retirados pelo IOUSP e que hoje estão em exposição no instituto. “Já ofereci avião, outro navio no lugar, mas querem esse de qualquer jeito. Temos mentalidade de afundar história nesse País”, defende.

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