Brendam Smialowski/AFP
Brendam Smialowski/AFP

Ofensiva de Trump à ciência mobiliza pesquisadores nos Estados Unidos

Grupos se mobilizam para apoiar colegas da academia alvo de ataques e estimular a participação de cientistas na política eleitoral

Beatriz Bulla, O Estado de S. Paulo

28 de julho de 2019 | 03h00

WASHINGTON - Donald Trump já chamou o aquecimento global de uma “farsa” criada pelos chineses e já disse que turbinas de energia eólica causam câncer. O descrédito do presidente dos Estados Unidos às evidências científicas tem efeito nas políticas públicas americanas – o exemplo é a retirada do país do Acordo Climático de Paris, tratado firmado por 195 para conter o aumento global de temperatura até o fim do século, e mudanças na composição de órgãos de aconselhamento, com redução do papel dos cientistas. Nada disso acontece sem reação e mobilização dos ativistas pró-ciência.

“Todo mundo quer a ciência do seu lado, todo presidente tem a tendência de pegar a informação que suporte suas próprias políticas, mas não tínhamos visto tantos ataques generalizados”, diz  Michael Halpern, que trabalha há 15 anos com a associação dos “cientistas preocupados” (Union of Concerned Scientists, no nome em inglês),

Halpern é diretor do centro de ciência e democracia da instituição, que tenta ajudar cientistas alvo de ataques pessoais, combater a desinformação e fortalecer a comunidade científica. Segundo ele, na gestão Trump cargos técnicos foram trocados por indicações políticas. “Tudo isso é uma forma de evitar a prestação de contas públicas, de justificar as decisões tomadas com fundamento político e não científico”, afirma.

Nesta semana, a Câmara começou a discutir o projeto de lei da integridade científica, visto como uma forma de blindar cientistas que trabalham nas agências federais de interferência política de superiores. Democratas e republicanos concordaram que decisões públicas precisam se basear em fatos, mas divergiram sobre formas de proteger os cientistas que trabalham para o governo.

O projeto de lei é apoiado pela comunidade científica, mas visto apenas como o primeiro passo. “O governo Trump propôs coletar menos dados sobre mudança climática. Se você não coleta os dados, você não tem um problema a resolver, porque não está mensurando o problema”, afirma Halpern. Segundo ele, toda vez que a ciência é deixada de lado é porque estão em jogo interesses ideológicos ou econômicos.

“Não é uma guerra à ciência. É mais uma guerra de informação. O presidente Trump ataca juízes, a mídia, universidades, os militares, quando o que eles dizem contradiz o que ele está fazendo. Há mais movimentos populistas ao redor do mundo e há uma estratégia de diminuir o papel das instituições para que as pessoas não saibam em quem confiar e seja mais fácil disseminar desinformação”, afirma Michael.

Na política

Shaughnessy Naughton tem formação em Química. Em 2014 e em 2016, decidiu concorrer nas eleições para o Congresso ao perceber que poucos parlamentares eram cientistas ou ativistas a favor da ciência. Ela falhou, mas não considera isso um fracasso. As disputas a fizeram ver que era necessário preparar os integrantes da comunidade científica para disputarem eleições e que, sim, havia apoio entre seus pares. Foi aí que ela decidiu fundar o 314 Action, para incentivar e apoiar engenheiros, matemáticos e cientistas a entrarem na política.

A ideia é dar suporte a todos os ativistas ligados a ciências para disputarem eleições e, com isso, produzirem políticas públicas baseadas em fatos. Em 2018, o movimento arrecadou US$ 5,2 milhões (cerca de R$ 19,6 milhões) para financiar campanhas e elegeu um cientista para o Senado, oito para a Câmara e cerca de 100 para os legislativos estaduais.

“Nos Estados Unidos, temos mais congressistas que já foram apresentadores de programas do que cientistas. A maioria dos parlamentares são empresários ou advogados, eles levam algo para as negociações, mas os cientistas também o fazem. As questões mais importantes saem beneficiadas quando há atenção para os dados e evidências, como integridade de eleições, cibersegurança, mudança climática e saúde”, afirma. Os ataques à ciência, diz ela, não começaram nos últimos anos. “O que acontece é que, com Trump, virou uma guerra à realidade. Isso também se tornou um catalisador para os cientistas perceberem que não é suficiente esperar que as evidências falem por si mesmos."

Na disputa de 2020, a perspectiva do 314 Action é conseguir entre US$ 15 e 20 milhões (entre aproximadamente R$ 56 milhões e R$ 75 milhões) para financiar as campanhas eleitorais. “Espero ajudarmos esse país a voltar aos trilhos, e dar ouvidos aos dados e fatos científicos”, afirma Shaughnessy. “Encorajo cientistas que não esperem para publicar dados e servirem como conselheiros, mas a entrarem no processo eleitoral”, diz.

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