Oficina de Lutheria alia projeto social ao ambiental

Sediada na periferia de Manaus, no Amazonas, a Oficina Escola de Lutheria da Amazônia tem a proposta de ensinar um ofício a adolescentes carentes, através da construção de instrumentos musicais. Mas não é só isso. Sua opção por priorizar o uso de madeiras de origem certificada pelo Conselho para o Manejo Florestal - conhecido pela sigla internacional FSC -, possibilitou à oficina o status de primeira escola de lutheria no mundo a conquistar o Selo Verde.Outro objetivo da escola é pesquisar espécies amazônicas atualmente não usadas comercialmente e que podem substituir madeiras tradicionalmente utilizadas na fabricação de instrumentos. Idealizada pelo luthier Rubens Gomes, em 1998, a curso básico já formou 13 meninos e meninas, entre 14 e 21 anos, e trabalha atualmente com 78 crianças.Além desta unidade, possui mais duas. A primeira fica na Escola Agrotécnica Federal de Manaus, onde funciona o laboratório de linha de produção semi-industrial em lutheria (construção de instrumentos musicais) e está em processo de regulamentação junto ao Ministério de Educação, para implantar o curso técnico e um pós-médio na área. A outra foi criada no município de Boa Vista do Ramos, o menor do Estado, com 12 mil habitantes, onde atende os ribeirinhos daquela comunidade em treinamento e capacitação profissional para produção de pequenos objetos de madeira em marchetaria. Este trabalho também está em fase de certificação florestal.?A idéia inicial era montar um projeto na região de maior conflito social de Manaus, por acreditarmos que é inconcebível uma região com tanta riqueza, que é a Amazônia, abrigar tamanha pobreza. Além disso, achamos que é possível transformar recursos naturais de forma racional?, diz Gomes. O projeto, que começou sem nenhum financiamento, hoje conta com recursos da Fundação Ford, da Unicef, através do Criança Esperança, e do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT).Segundo o luthier, a Oficina movimentou R$ 150 mil nos três projetos em 2001. ?Na verdade, poucos recursos para os resultados que conseguimos?, avalia. Rubens explica que a escola trabalha com os instrumentos de maior valor agregado, que são os de corda dedilhada (violão, cavaquinho, viola caipira), por serem os mais populares e facilitarem a introdução dos jovens no mercado de trabalho. ?Depois do curso, eles podem fabricar e restaurar instrumentos.Para aumentar a possibilidade de colocação para os alunos, a Oficina está investindo no Laboratório de Linha de Produção, para o qual foi firmado um convênio de cooperação técnica com a Fábrica de Instrumentos Musicais Fernando Ortiz, de Havana, Cuba, que enviou o maestro Raul Lage para orientar o processo produtivo pedagógico para a formação de técnico líder de produção industrial em lutheria. ?Queremos, no futuro, formar cooperativas e dar opção de trabalho a esses jovens?, diz Gomes.Novas madeirasRubens Gomes define a Escola de Lutheria como uma estratégia para o desenvolvimento sustentável e, para tanto, a pesquisa para o uso de madeiras ainda sem valor comercial é fundamental. ?A indústria de instrumentos musicais no mundo é consolidada, mas chama a atenção o fato de utilizarem espécies de florestas temperadas e algumas tropicais, que estão em extinção. Com isso, a tendência é utilizarem o compensado. Por outro lado, a Amazônia tem uma diversidade fantástica de espécies ainda sem valor comercial, o que dificulta os projetos de manejo na região?, conta.Assim, o projeto busca identificar espécies com potencial de substituir as madeiras tradicionais e repassar o conhecimento para as comunidades amazônicas. Uma dessas madeiras é o marupá, usada apenas para a queima e que pode substituir o pinho em tampos de violão. ?Um metro cúbico dessa madeira é vendido entre R$ 70,00 a R$ 120,00, mas pode ser transformado em 400 tampos. Se forem comercializados a R$ 1,00 cada, já teremos R$ 400,00, agregando valor e aumentando o número de pessoas trabalhando no processo?, diz o diretor da Oficina.Além do marupá, os alunos da escola estão usando o pau-rainha no lugar do jacarandá da Bahia, e breu-branco no lugar de mogno e cedro - para fabricar o braços dos instrumentos. ?São madeiras extremamente abundantes, que ninguém usou a não ser para fazer fumaça?, diz. A preciosa ou canelão, usada pelos caboclos para fazer chá, está substituindo o ébano - madeira nobre utilizada para instrumentos de corda e sopro -, tão valorizado que é vendido a quilo ao invés de metro.

Agencia Estado,

20 de fevereiro de 2002 | 15h42

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.