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Onde domesticamos os cavalos?

Domesticação desses animais permitiu transporte de carga por longas distâncias e deslocamentos mais rápidos

Fernando Reinach*, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2021 | 05h00

A domesticação do cavalo foi importante para a humanidade. Ela permitiu deslocamentos rápidos e o transporte de carga por longas distâncias. Nossa velocidade de deslocamento, que era a da caminhada, passou a ser a do galope, e a carga transportada passou do que conseguíamos carregar nas costas à capacidade de uma tropa de cavalos. Durante milênios os cavalos e as carroças foram os carros, caminhões, navios e os aviões de hoje.

O local onde os cavalos foram domesticados é cercado de mistério. Teorias conflituosas, baseadas nos achados de ossos, apontam para a península Ibérica, Botai na Ásia Central, e para a Anatólia. O que se sabe é que os achados mais antigos, que datam de 3.500 Antes de Cristo, são currais encontrados no Botai, mas é difícil saber se os cavalos daquela época já eram domesticados. Dois mil anos depois, por volta de 1.500 Antes de Cristo, o cavalo estava domesticado e as carroças já eram usadas em todo o mundo.

Agora um grupo de cientistas sequenciou o genoma de 273 cavalos pré-históricos que viveram entre 44 mil e 2 mil anos atrás. Os ossos foram coletados em toda a Europa, Eurásia e Ásia. Comparando as sequências de DNA, descobriram que antes de 2.000 Antes de Cristo, os cavalos que viviam em diferentes regiões da Europa e da Ásia eram diferentes do ponto de vista genético e podiam ser agrupados em quatro grupos distintos. Passados 500 anos os cavalos que viviam nessas regiões pertenciam a somente um desses quatro grupos: os outros três grupos desapareceram. O grupo que sobreviveu inclui todas as raças que conhecemos hoje, desde os enormes cavalos de tração aos de corrida. Foi possível também determinar que o grupo de cavalos que dominou todo o planeta é descendente dos cavalos que viviam na região do rio Volga, uma região denominada Volga-Don, que fica nas estepes da Eurásia.

A explicação mais simples para esse achado é que os cavalos que viviam no Volga-Don foram domesticados e se mostraram tão úteis que seu uso e sua criação foram disseminados para toda a Europa, se tornando os cavalos que conhecemos hoje.

Comparando os genes dos cavalos domesticados de hoje, com os genes desses três outros grupos de cavalos do passado, os cientistas descobriram que os cavalos modernos possuem duas mutações que talvez tenham ajudado na domesticação. Uma é num gene chamado ZFPM1 que regula o humor dos animais e que os torna mais dóceis. Outro é um gene chamado GSDMC relacionado a dores crônicas nas costas. O que os cientistas acreditam é que os cavalos que foram domesticados não somente eram mais dóceis, mas tinham menos dores nas costas quando montados.

A conclusão é que uma linhagem cavalo originária da região do Volga-Dom foi domesticada por volta de 2.000 BC e se espalhou pelo mundo. Aos poucos substituíram os outros três grupos que existiam na Europa e Ásia dando origem aos cavalos domesticados modernos.

Mais informações: The origins and spread of domestic horses from the Western Eurasian steppes. Nature

*É BIÓLOGO, PHD EM BIOLOGIA CELULAR E MOLECULAR PELA CORNELL UNIVERSITY E AUTOR DE ‘A CHEGADA DO NOVO CORONAVÍRUS NO BRASIL’; ‘FOLHA DE LÓTUS’, ‘ESCORREGADOR DE MOSQUITO’; E ‘A LONGA MARCHA DOS GRILOS CANIBAIS

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