ONU discute implementação do Protocolo de Kyoto

Teve início nesta quarta-feira em Nova Délhi, Índia, a reunião anual da Convenção sobre as Mudanças Climáticas. O encontro termina na próxima semana e seu principal assunto é o Protocolo de Kyoto, o acordo internacional organizado pela convenção para reduzir as emissões dos gases poluentes que provocam o aquecimento do planeta.A agenda dessa reunião anual pode ser lida em dois grandes blocos. De um lado, a preocupação é detalhar o acordo de Kyoto no que se refere à adaptação dos países - principalmente os mais pobres ou em desenvolvimento - aos efeitos negativos do aquecimento global: enchentes, secas, mudanças nos padrões de chuva.De outro lado, é preparar o terreno para um novo protocolo, que cobriria o período de 2013 a 2018. O de Kyoto cobre o período 2008 a 2012, e nesse intervalo é que se espera reduzir em 5% as emissões de poluentes nos países desenvolvidos.No meio disso há uma torcida para se conseguir, ainda neste ano, as ratificações para que o protocolo entre em vigor no início de 2003. A Rússia é o único país, dentre os que ainda não ratificaram, que pode oferecer esse resultado.Mas são as perdas financeiras provocadas pelos desastres naturais atmosféricos - furacões, tufões, enchentes e tempestades - que já fazem da poderosa indústria de seguros uma forte aliada do acordo de Kyoto. Nesta reunião, as resseguradoras estão novamente ao lado dos ambientalistas, pressionando os governos para que o documento venha, finalmente, a entrar em vigor.O crescimento do número e da intensidade das catástrofes atmosféricas já afeta os balanços anuais das resseguradoras, empresas que fazem o seguro das seguradoras.O relatório anual da American Re., referente a 2001, deixa claro que "tornados, tempestades de granizo, ventanias e enchentes foram a maior fonte de perdas em catástrofes naturais em 2001. Ao longo do ano, 15 diferentes tempestades causaram US$ 4,4 bilhões de perdas seguradas e um número surpreendente de eventos ocorreu no outono e inverno".Nos últimos anos, junto com o crescimento do número de desastres atmosféricos ocorreu também um aumento na proporção das perdas seguradas. Ou seja: as pessoas estão fazendo mais seguros das suas propriedades, particularmente nas áreas de maior risco. O lado positivo: a indústria de seguros cresceu. O negativo: ela está mais exposta a perdas provocadas pelas mudanças climáticas globais.Mas essas mudanças afetam padrões climáticos em todo mundo, e podem ir muito além dos conhecidos desastres normalmente cobertos por apólices de seguros.O fornecimento de água potável, por exemplo, vai ser cada vez mais prejudicado pelas alterações no regime de chuvas.A saúde pública será cada vez mais penalizada pelo aumento tanto dos casos como das áreas de ocorrência de doenças tropicais típicas de regiões úmidas e quentes, como dengue e malária. Parte desses efeitos já são sentidos na área de influência do El Niño, que vai da América do Sul ao Sudeste Asiático e Austrália.Todos os cenários até agora divulgados pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC em inglês), mantido pela ONU e que conta com mais de 3.000 cientistas de todo mundo, mostram um aumento na freqüência e severidade das ondas de calor, ciclones tropicais, secas e enchentes, principalmente nas áreas mais populosas dos países em desenvolvimento, como a região sob influência das chuvas de monções na Ásia.Essa reunião coloca lado a lado países com capacidades opostas de lidar com esses efeitos. O ministro de Ambiente da Índia, T. R. Baalu, anfitrião da reunião, deixou claro que "o crescente risco dos impactos negativos das mudanças climáticas vai priorar a pobreza. A fome irá aumentar."Para Fábio Feldmann, secretário executivo do Fórum Brasileiro de Mudanças Climáticas, "no Brasil já avançamos ao ponto de termos propostas para os demais países, desenvolvidos e em desenvolvimento, como a iniciativa por fontes renováveis de energia". Feldmann refere-se à proposta apresentada pelo Brasil na reunião de cúpula em Johanesburgo, no mês passado, que gerou negociações com União Européia, Índia e China.Bruno Porro, executivo da Swiss Re., ao comentar a piora dos indicadores sociais e ecológicos em todo mundo desde a assinatura dos acordos na Rio 92, assegura que "essa situação só aumenta nosso compromisso pela preservação da sustentabilidade como componente chave de nossa estratégia corporativa".

Agencia Estado,

23 de outubro de 2002 | 19h54

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