Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2018 | 03h00

No início de abril, a estação espacial chinesa Tiangong-1 - que pesava 8,5 toneladas e estava fora de controle e inoperante desde 2006 - caiu no Oceano Pacífico, chamando a atenção do mundo para a questão da sucata espacial. Mas, segundo estudos feitos pela Agência Espacial Europeia (ESA), o problema é bem mais grave do que a queda de um módulo em pane: a quantidade de lixo aumentou consideravelmente nos últimos anos, deixando o espaço orbital da Terra cada vez mais próximo do limite de saturação.

Em 60 anos de atividade espacial, mais de 5 mil lançamentos de foguetes fizeram com que a órbita da Terra ficasse repleta de dejetos. A ESA estima que satélites inoperantes, partes de foguetes, peças de espaçonaves e pedaços de objetos relacionados a missões espaciais já somam 7,5 mil toneladas de lixo orbital. 

Esses detritos viajam em torno da Terra em velocidades alucinantes, que podem passar dos 28 mil quilômetros por hora. Nessas condições, a colisão de um pequeno parafuso com um satélite pode ter o efeito de um tiro de canhão. 

“Se reduzirmos os lançamentos espaciais a zero hoje mesmo, o número de objetos vai continuar aumentando da mesma forma. Isso porque cada colisão espalha um grande número de detritos, que continuam viajando no espaço em grande velocidade, produzindo novas colisões”, disse ao Estado o diretor do Escritório de Detritos Espaciais da ESA, Holger Krag.

De acordo com Krag, esse efeito cascata, que tende a aumentar exponencialmente os riscos de novas colisões, praticamente inviabilizando o uso da órbita terrestre para atividades espaciais, foi previsto em 1978 por um consultor da Nasa, Donald Kessler. Quatro décadas depois, a chamada “síndrome de Kessler” já é uma realidade. 

“Há cinco anos, concluímos que a síndrome de Kessler já acontece em algumas regiões do espaço e então corremos para implementar nosso programa de redução do lixo espacial. Estamos desenvolvendo tecnologias de remoção ativa dos detritos. Se conseguirmos recursos, o programa entrará em ação em 2023”, afirmou Krag.

Ele conta que a prioridade é retirar do espaço os objetos grandes - que são a maior fonte de novos detritos - e os mais próximos à Terra, onde se concentra mais lixo. “Objetos menores também são perigosos, mas têm mais chance de cair na atmosfera, desintegrando-se.” 

Segundo Krag, o tempo entre duas colisões está ficando cada vez mais curto. “Hoje, acontece uma colisão a cada cinco anos, provocando milhares de fragmentos. Nesse ritmo, em poucas décadas a órbita baixa da Terra ficará impraticável.”

Segundo Krag, em 2009 foi registrada a primeira colisão entre dois satélites de comunicação: um deles, russo, desativado, e o outro, americano, em operação. “Só nesse episódio foram lançados mais de 2 mil fragmentos de lixo. Por isso é tão urgente rastrear e eliminar esses objetos maiores.”

Já foram rastreados até agora mais de 23 mil detritos com mais de 10 centímetros na órbita da Terra. Outros 750 mil fragmentos têm entre 1 e 10 centímetros. Estima-se que haja ainda 166 milhões de dejetos com menos de 1 centímetro, que não podem ser rastreados. 

 

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Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2018 | 03h00

O Brasil começou a participar concretamente do esforço internacional de “faxina espacial” há exatos dois anos, quando o Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA) assinou com a Agência Espacial Russa (Roscosmos) um acordo para mapear os detritos espaciais. Há um ano, foi inaugurado em Brazópolis, no sul de Minas Gerais, um telescópio russo-brasileiro exclusivamente dedicado ao monitoramento de lixo espacial.

De acordo com o diretor do LNA, Bruno Castilho, o Brasil entrou na iniciativa por causa de sua localização geográfica. Para mapear o lixo espacial com precisão, os russos precisavam de um parceiro no Hemisfério Sul. “A Roscosmos tem um telescópio dedicado ao rastreamento na Rússia, que funciona em conjunto com o que operamos aqui. Com um telescópio em cada hemisfério, conseguimos localizar os detritos com mais precisão, porque sua posição é marcada pelos dois lados da Terra”, explicou Castilho.

Quando as coordenadas do objeto detectado são obtidas, os dados são enviados para a Agência Espacial Europeia (ESA) e para a Nasa, a agência espacial americana, para serem registrados em um catálogo internacional. “Mesmo que as iniciativas de remoção ativa do lixo espacial ainda não tenham começado de fato, essas informações já são muito úteis. Quando um satélite novo é enviado, ele é programado para evitar aquela rota com detritos”, disse. 

O telescópio do LNA, que fica no Observatório do Pico dos Dias, a mais de 1,8 mil metros de altitude, funciona diariamente, em noites de céu aberto. De acordo com o cientista, ele tem mapeado de 500 a 800 detritos espaciais por noite. 

“O pessoal da Rússia produz os dados principais e define para onde apontar o telescópio do Hemisfério Norte. Eles então enviam os dados para o Brasil e nossos técnicos fazem as observações. Um software caracteriza exatamente o que é o detrito, envia os dados à Rússia e lá eles fazem o processamento final.”

Segundo Castilho, o governo da Rússia financiou toda a construção e a instalação do telescópio e contratou os funcionários brasileiros que atuam no projeto. “A operação envolve seis cientistas e técnicos brasileiros contratados pela Roscosmos. Não sabemos o valor investido no equipamento, mas estimamos em R$ 10 milhões”, disse.

O LNA emprestou o terreno para a instalação do instrumento e, como contrapartida, os cientistas brasileiros podem utilizar todas as imagens produzidas por ele em estudos astronômicos. “Esse instrumento tem uma resolução mais baixa que os telescópios astronômicos, mas possui um campo de visão maior. Quando procuramos uma estrela variável, ou uma região onde há uma explosão de supernova, por exemplo, ele é muito eficiente”, explicou.

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Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

29 Abril 2018 | 03h00

Segundo o tecnologista Ademir Xavier Júnior, da Agência Espacial Brasileira (AEB), o Brasil tem atualmente uma dúzia de objetos em órbita, o que nos dá o status de “país lançador”. Com isso, a AEB tem a responsabilidade de registrar todos os objetos espaciais do País, para que seja possível contabilizar possíveis impactos ambientais. O impacto do lixo espacial brasileiro, porém, é pequeno. A proporção de objetos lançados equivale a 0,95% do total dos que foram registrados pelos Estados Unidos e 0,76% dos registrados pela Rússia.

“Não é o caso de se dizer que inexiste impacto do lixo do Brasil, mas, certamente, as chances maiores de danos estão do lado das nações que mais lançam. É preciso lembrar que não são apenas satélites em órbita que contam, mas também resíduos de lançamento que não têm mais função uma vez finalizada a inserção em órbita”, disse Xavier ao Estado

 

De acordo com Xavier, o desenvolvimento de tecnologias de “limpeza orbital” não terá sucesso se for dirigido apenas por um país. “Existem questões de jurisprudência internacional envolvidas, além da necessidade de desenvolver técnicas que exigem orçamento proporcional ao tamanho do problema. As colisões sucessivas entre objetos em órbita e o aumento esperado de lançamentos tornarão o problema do lixo espacial uma questão grave que exigirá a participação de todos os países lançadores”, disse.

O tecnologista afirma que, além da operação do telescópio russo em Minas Gerais, o Brasil tem contribuído com a “limpeza espacial” com a publicação de diversos estudos sobre mitigação do problema. Ele diz também que os dados internacionais de monitoramento desses objetos já são utilizados no planejamento das missões espaciais brasileiras para evitar os riscos de impacto.

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