Orlando Villas Bôas, o cacique branco do Xingu

Orlando Villas Bôas nasceu em 12 de janeiro 1914, em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo. Colega de colégio de Ulysses Guimarães, foi forçado a deixar os estudos ainda adolescente depois da morte dos pais, Agnello e Arlinda, para ajudar a sustentar os oito irmãos. Em 1935, alistou-se no Exército, de onde seria expulso quatro anos depois, por indisciplina. "Eu só obedecia às ordens que julgava certas", rememorou certa vez. Sem abrir mão do espírito livre, conseguiu um emprego na multinacional de petróleo Esso. Logo, apelidou o chefe, um inglês mau-humorado, de "Bife", gíria da época para designar os britânicos. Demitido em 1942, rumou para o Centro Oeste. Remou durante 22 dias pelo rio Araguaia, e juntou-se ao acampamento, em Mato Grosso, de onde sairia a expedição Roncador-Xingu. Seus irmãos Cláudio e Leonardo incorporaram-se à comitiva. Cláudio permaneceria na região até a década de 80, morrendo em São Paulo em 1998. Leonardo morreria no Xingu, vítima de uma lesão cardíaca, em 1961.Orlando, Cláudio, Leonardo e Álvaro cuidadosamente mapearam seus encontros com as 14 tribos indígenas com quem estabeleceram contato, obtendo sempre sua permissão tácita para instalar as bases da Fundação Brasil Central. Cientes da fragilidade das comunidades - tanto do ponto de vista da falta de imunidade às doenças da civilização ocidental, quanto do preparo militar - com as quais se deparavam, Orlando e seus irmãos impediram que a política militarista se instalasse entre pessoas armadas apenas com flechas. Seguindo à risca o lema do Marechal Rondon "Morrer se for preciso, matar nunca", os Villas Bôas puseram fim a guerras tribais, garantiram a sobrevivência dos povos que encontraram no processo, mantendo ao mesmo tempo, boas relações com os sucessivos governos do País. Em 1961, por exemplo, obtiveram de Jânio Quadros o decreto que criou o Parque Nacional do Xingu, de 28 mil km2, onde ainda estão instaladas 14 tribos. E no período do regime militar conseguiram a recuperação da terra original dos índios Kren-Akarores, também conhecidos como Panarás.Em 1969, Orlando casou-se com a jovem Marina Lopes de Lima, que seis anos antes havia deixado São Paulo para ser enfermeira no Parque Nacional do Xingu. No ano seguinte nasceu o primeiro filho do casal, Orlando, que passou boa parte da infância entre as tribos, e hoje é advogado e historiador. Em 1975, nasceu Noel, o filho mais novo, que estuda Direito em São Paulo. Seu nome foi uma homenagem ao sanitarista Noel Nutels, que viveu no Xingu nos anos 50 e 60 e prestou um apoio fundamental ao trabalho dos Villas Bôas.Orlando também foi autor de 12 livros, muitos em co-autoria com seu irmão Cláudio, e inúmeros artigos em jornais e revistas internacionais, como a National Geographic Magazine. Juntos e individualmente, os irmãos receberam honras acadêmicas, cidadanias e títulos honorários, homenagens a sua atuação na política de proteção à cultura indígena. Orlando foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz, em 1976.Em 1978, Orlando Villas Bôas deixou definitivamente seu cargo no Parque do Xingu. Em 1984, recolheu-se a uma confortável casa no bairro paulistano de Alto da Lapa, onde montou um galpão repleto de objetos indígenas recolhidos nas décadas de viagens pelo Brasil Central. Mesmo aposentado, continuou a fazer conferências em instituições diversas do Brasil e no exterior. Em março passado, já com problemas de saúde e depois de passar cerca de um mês um período hospitalizado, fez palestras em universidades do interior paulista.No dia 5 de dezembro, foi lançada a versão em livro de "O Xingu dos Villas Bôas", originalmente um site do Portal Estadão, montado com a colaboração de sua família e de dezenas de amigos e colaboradores. A produção do livro foi acompanhada por Orlando, que chegou a ver o trabalho pronto antes que seu estado se agravasse.

Agencia Estado,

12 de dezembro de 2002 | 17h23

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