Jerome Delay/AP
Jerome Delay/AP

Os cachorros não conseguem não amar

Se você criar um cão junto com ovelhas, ele vai amar as ovelhas. Se criar um cão junto com as cabras, ele vai amar as cabras

James Gorman, The New York Times

26 de novembro de 2019 | 10h30

TEMPE - Xephos não é a autora de Dog Is Love: Why and How Your Dog Loves You (Cachorro é amor: como e por que seu cachorro ama você), um dos livros mais recentes sobre a natureza dos cães, mas ajudou a inspirá-lo. E, enquanto eu coçava atrás das orelhas dela, era fácil ver o porquê.

Primeiro, ela fixou em mim aqueles olhos de cachorro pidão, implorando pela minha atenção. Depois, toda vez que eu parava de coçar, ela cutucava minha mão com o nariz e a levantava. Não sou muito fluente em cachorrês, mas a mensagem era bem clara: “não pare de fazer carinho em mim”.

Estávamos no escritório de Clive Wynne, psicólogo da Universidade Estadual do Arizona especializado em comportamento canino. Ele é dono da Xephos, uma vira-lata que a família Wynne encontrou em um abrigo em 2012.

O livro de Wynne é uma longa reflexão sobre aquilo que torna os cães tão especiais - não sua inteligência, mas sua afetividade. O afeto desavergonhado e indiscriminado de Xephos despertou seu coração - e também seu pensamento.

Quando Xephos me cutucou mais uma vez, Wynne estava descrevendo mudanças genéticas que ocorreram em algum momento da evolução dos cães e que, segundo ele, explicam por que os cães são tão sociáveis com membros de outras espécies.

“Ei”, Wynne disse a ela, que inclinava a cabeça para aproveitar o máximo possível dos meus carinhos, “há quanto tempo você tem esses genes?”.

Ninguém contesta a sociabilidade dos cachorros. Mas Wynne não concorda com o ponto de vista científico de que os cães têm uma capacidade única de entender e se comunicar com os seres humanos. Ele acha que os cães têm uma capacidade única para o amor entre as espécies - amor mesmo, a palavra que ele decidiu usar, deixando de lado décadas de imersão no jargão científico.

Dog Is Love é um dos vários livros sobre cães lançados neste ano e um dos inúmeros do gênero publicados na última década. Brian Hare, antropólogo evolucionista e pesquisador do comportamento canino da Universidade Duke, fundador do Centro de Cognição Canina de Duke, escreveu recentemente que existem 70 mil livros sobre cães listados na Amazon.

Desde 2000, na época em que a pesquisa sobre cães ganhou fôlego, cientistas começaram a escrever uma pequena mas significativa quantidade desses livros para o público mais geral. Como The Genius of Dogs (O gênio dos cães), que Hare publicou em 2013, os livros abordam o que se passa no coração e na mente dos cachorros. A maioria dá ênfase à mente.

O livro de Wynne diverge do de Hare no que diz respeito à importância da capacidade de raciocínio dos cães, a qual Hare vê como central no vínculo com os seres humanos. Usando a palavra amor, Wynne fala de perto a muitos donos de cães apaixonados. Mas também pode decepcioná-los. A razão pela qual os cães são “uma incrível história de sucesso” tem a ver com sua capacidade de se relacionar com as outras espécies, disse ele. Não apenas com os humanos.

Se você criar um cão junto com ovelhas, ele vai amar as ovelhas. Se criar um cão junto com as cabras, ele vai amar as cabras. Se criar um cão junto com as pessoas... você já sabe o que vai acontecer.

Alguns lobos agora extintos se apegaram aos humanos há mais ou menos 15 mil anos, porque tínhamos boas sobras de comida - pelo menos é o que diz a teoria dominante, embora o que realmente aconteceu esteja perdido no tempo. Ao que parece, os humanos gostaram bastante dos lobos renegados e, com o tempo, começaram a controlar sua reprodução e a deixar que dormissem debaixo do edredom.

Agora, como Wynne disse em uma palestra na Conferência Internacional de Ciências Caninas, em Phoenix, em outubro, os cães são um sucesso evolutivo surpreendente. Os lobos, nem tanto.

“Para cada lobo sobrevivente neste planeta, existem pelo menos 3 mil cães.”

Por outro lado, ninguém faz um lobo passar vergonha vestindo-o com fantasia de Halloween.

No início dos anos 2000, quando Wynne começou a pesquisar os cães, um de seus trabalhos foi dar seguimento a uma experiência de Hare que concluíra que os cães eram melhores que os lobos e os outros animais para seguir orientações dos humanos. Wynne e Monique Udell, pesquisadora do comportamento animal da Universidade Estadual do Oregon, esperavam confirmar as descobertas de Hare.

Os lobos com os quais escolheram trabalhar foram criados por mãos humanas e socializados no Wolf Park, em Lafayette, no Estado americano de Indiana. Wynne descobriu que os lobos eram tão bons em seguir indicações humanas quanto os melhores cães de estimação.

Hare e seus colegas questionaram os resultados e perguntaram se os experimentos seriam de fato comparáveis, argumentando que os cães têm uma capacidade inata de seguir as indicações humanas, sem a atenção especial que os lobos receberam. O debate continua.

A segunda parte do argumento de Wynne tem a ver com a maneira como os cães são sociais. Não há dúvida de que eles se relacionam com as pessoas de uma forma que não acontece com os outros caninos. Wynne relatou um experimento o qual demonstrou que, se um filhote passar 90 minutos por dia, durante uma semana, com um ser humano a qualquer momento antes das 14 semanas de idade, ele vai se socializar e se sentir à vontade com os seres humanos.

Curiosamente, o experimento não encontrou nenhum absolutismo genético na conexão entre cães e humanos. Sem contato com humanos quando jovens, os cães podem se tornar tão desconfiados quanto os animais selvagens. Lobos não se socializam assim tão facilmente. Para ficarem mais tolerantes, exigem um envolvimento de 24 horas por dia com seres humanos, por muitas semanas, quando filhotes. E nunca ficam parecidos com a Xephos.

A prova da afeição dos cães pelos por seres humanos vai além dos gestos observáveis de Xephos e dos outros cães como ela. Gregory Berns, neuroeconomista da Universidade Emory que decidiu estudar os animais para entender o que seu próprio cão estava pensando, usou aparelhos de ressonância magnética para observar o que acontecia nos cérebros caninos.

Entre suas descobertas está a de que a parte do cérebro dos cães que se acende quando eles ouvem as vozes de seus donos é a mesma parte do cérebro humano que se acende quando gostamos de alguém ou alguma coisa. Seu primeiro livro foi How Dogs Love Us (Como os cães nos amam).

Alexandra Horowitz, chefe do Laboratório de Cognição Canina no Barnard College, em Nova York, que já escreveu muito sobre cães, também abordou a questão do amor em seu novo livro, Our Dogs, Ourselves (Nossos cães, nós mesmos).

Sem dúvida, os cães têm sentimentos, escreveu ela. Mas, com a mesma certeza, advertiu que esses sentimentos não são os mesmos dos humanos. Também não devemos presumir, argumentou ela, que os cães estejam entre o robô e o homo sapiens no espectro emocional. Ela escreveu em seu livro: “Pelo que sabemos, a experiência emocional dos cães é muito mais elaborada que a nossa”.

O ponto central dessa experiência, embora desconhecida em sua complexidade, é o prazer que um cão experimenta na presença dos seres humanos. A intensidade desse prazer e a facilidade de ativá-lo, disse Wynne, estão embutidos no genoma do cão.

Ele descobriu isso em sua pesquisa com Bridgett vonHoldt, bióloga molecular da Universidade de Princeton. Ela e uma equipe de pesquisadores identificaram genes em cães que, em humanos, estão associados à Síndrome de Williams-Beuren, um raro distúrbio genético. Um dos muitos sintomas da síndrome é a simpatia indiscriminada.

Wynne e Udell trabalharam com vonHoldt em um estudo subsequente sobre lobos e cães, ligando comportamento e genética. E concluíram que os genes associados à Síndrome de Williams-Beuren têm relação com a disposição para a amizade em cães e lobos.

Eles sugeriram que os seres humanos podem ter selecionado cães amigáveis ao longo de milhares de anos de domesticação, e os genes Williams-Beuren podem ser uma das consequências. Outros cientistas foram cautelosos com os resultados, considerando que o trabalho apresenta uma hipótese intrigante, mas requer mais pesquisas.

O fato é que os humanos parecem ter moldado os cães para serem amigáveis com outras espécies além dos humanos. Ao que parece, os filhotes introduzidos em qualquer outra espécie quando jovens formam um forte vínculo com essa espécie.

Os cães têm “uma disposição anormal para formar fortes laços emocionais com quase tudo o que cruza seu caminho”, disse Wynne. “E mantêm isso ao longo da vida. Acima e além disso, eles têm vontade e interesse em interagir com estranhos.”

Como e quando esse amor livre, ou hipersociabilidade, evoluiu nos cães, esta é uma questão que ainda está em debate. Wynne aposta que, depois que alguns lobos antigos começaram a se associar aos humanos e se tornaram cães, há mais ou menos 15 mil anos, e quando os humanos começaram a viver em assentamentos e a agricultura decolou, há cerca de 8 mil anos, os humanos começaram a selecionar os cães por sua propensão à amizade, causando as diferenças genéticas que vonHoldt encontrou.

Com sorte, pesquisas futuras sobre o DNA de cães modernos e antigos mostrarão se ele está certo. /TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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