Outro ensaio sobre a cegueira

 Más noticias para o homem mais viajado do mundo. Após visitar o dr. Dan Dumitrescu, afamado veterinário oftalmologista de Timisoara, nosso grande viajante teve confirmadas as suspeitas de que a cegueira de sua mascote Trashie é irreversível. A pequena raposa das estepes siberianas adquiriu um diabetes por ingestão excessiva de álcool e acabou perdendo sua visão. Mais tarde, no hotel, mr. Miles e Trashie entornaram meia garrafa de um single malt da Ilha de Islay para superar a depressão resultante do diagnóstico.

MR. MILES*,

14 Setembro 2010 | 10h10

 

 

Ao voltar para Londres, nosso correspondente decidiu discorrer sobre o tema.

 

 

"Well, my friends: eis que Trashie não vê mais. Essa pequena companheira de olhos espertos que, ao meu lado, chegava a latir de alegria diante de alguma paisagem espantosa, agora não verá mais o horizonte branco do Salar de Uyuni, nem as pétalas da sakura, a flor da cerejeira que, na primavera, pinta o Japão de uma beleza intensa e efêmera.

 

 

Ainda ontem, na generosa tentativa de me consolar, minha amiga Glenda lembrou-me de que a visão dos cães, anyway, é limitada. Que eles não distinguem cores e são irremediavelmente míopes. Pois se isso é verdade, Trashie não deve ser um cão. Ou, perhaps, seu faro seja capaz de identificar o sublime, separá-lo do belo and so on.

 

 

Agora, enquanto escrevo, Trashie está aqui ao meu lado. Sua atitude é a mesma de sempre. Mantém-se silente, deitada e, de vez em quando, lança-me um olhar amoroso, como se nada tivesse acontecido. Apesar de alguns encontrões com as pernas das poltronas, parece já ter se familiarizado com o espaço.

 

 

A situação de Trashie invoca-me dois amigos que também não podem ver. Um deles é a extraordinária Lady Alice Symon, que perdeu a visão ainda na adolescência, mas segue espectadora do mundo com os olhos da memória. Lady Alice jamais parou de viajar. Jamais deixou de frequentar teatros e outros espetáculos. Com o auxílio discreto e brilhante de Lord Ernst, seu marido, viu poentes no Pacífico, espantou-se com o silêncio e as dimensões do Grand Canyon, aspirou aromas que ninguém mais percebeu e provou sabores magníficos que aos outros pareciam ordinários.

 

 

Quando a visito em seu castelo de Canterbury, fico sempre impressionado com a riqueza de detalhes com os quais ela descreve lugares que não deveria ter visto. Chego a mencionar impressões que tive com meus olhos e confrontá-las com opiniões que ela formou com os outros sentidos que tem. E, frequently, aprendo mais.

 

 

A outra pessoa que me vem à lembrança é Da Wei Wong, um admirável calígrafo chinês, cego de nascimento, a quem, há muitas décadas, conto histórias de viagem. Ele sempre pediu que o fizesse e eu nunca entendi como, em seu universo eternamente escuro, Da Wei pudesse entender o que é um cânion, uma falésia ou até mesmo a diferença entre o dia e a noite.

 

 

Imaginei, however, que meu paciente ouvinte - ora sorridente, ora pensativo - tivesse criado um mundo próprio, completamente diferente do que conhecemos. Onde cabiam falésias e cânions da maneira que ele os imaginasse. Um dia perguntei-lhe sobre isso. Da Wei respirou fundo e respondeu: ‘mr. Miles, o senhor já pensou que, talvez, apenas no mundo dos cegos as coisas são como realmente são?’

 

 

Yes, Da Wei, você me convenceu: vou continuar levando Trashie para viajar comigo."

 

 

 

 

* É O HOMEM MAIS VIAJADO DO MUNDO. ESTEVE EM 132 PAÍSES E 7 TERRITÓRIOS ULTRAMARINOS

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