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Paciente com paralisia volta a andar após cirurgia inédita

Células nervosas responsáveis pelo olfato foram transplantadas na medula, mas ainda falta comprovação

STÉFANO MARIOTTO e THIAGO SAWADA, Especiais para O Estado

21 Outubro 2014 | 20h51

Um homem com paralisia do tórax para baixo voltou a andar depois de passar por uma cirurgia na qual células nervosas responsáveis pelo olfato foram transplantadas na medula espinhal. O polonês Darek Fidyka, de 38 anos, se tornou a primeira pessoa do mundo a se recuperar de um rompimento total dos nervos da coluna vertebral. Ele ficou paralisado após ser esfaqueado várias vezes nas costas, em 2010. 

O tratamento inédito foi realizado por cirurgiões do Hospital Universitário Wroclaw, na Polônia, em parceria com pesquisadores da Universidade College de Londres. No procedimento, anunciado nesta terça-feira, mas feito há dois anos, Fidyka passou por uma neurocirurgia para retirar um dos bulbos olfativos - estrutura responsável pela percepção do olfato -, que foi colocado em uma cultura de células.


Após duas semanas, as células olfativas se desenvolveram e foram injetadas na medula espinhal. Os cientistas acreditam que essas células direcionam o crescimento das fibras nervosas acima e abaixo da lesão, até elas se reconectarem. 

Resultado de 12 anos de investigação, o novo procedimento traz esperança às pessoas com ferimentos na coluna vertebral, pois ainda não havia sido testado em seres humanos. Entretanto, entre a comunidade médica há cautela. O pesquisador do Instituto Nacional da Saúde e da Investigação Médica (Inserm, no original francês) Alain Privat, especialista em reconstrução da medula espinhal, destacou que ainda resta comprovar se foram realmente as células olfativas implantadas que reconectaram os tecidos danificados, bem como assegurar-se de que a coluna de Fidyka havia sofrido secção total.

Caso brasileiro. Na Bahia, em 2011, o policial militar Maurício Ribeiro passou por tratamento desenvolvido por pesquisadores ligados à Fundação Oswaldo Cruz, ao Centro de Biotecnologia e Terapia Celular (CBTC) e ao Hospital São Rafael. Ribeiro havia sofrido lesão completa por traumatismo na coluna vertebral, o que impede a passagem dos impulsos nervosos.

No procedimento pelo qual passou, foram retiradas células-tronco da região do quadril dele e reimplantadas diretamente no local da lesão. Após seis meses, e com o auxílio de um andador, o policial conseguiu caminhar novamente. “Ele passou de uma lesão completa para uma incompleta”, explica a coordenadora do Centro de Biotecnologia e Terapia Celular (CBTC) do Hospital São Rafael, Milena Soares.

A diferença entre os casos está na anatomia dos danos à coluna, já que, segundo os responsáveis pelo procedimento europeu, Fidyka passou por uma secção total dos nervos, enquanto Ribeiro sofreu uma lesão traumática que não chegou a romper totalmente os nervos. Milena é prudente quanto aos resultados obtidos na Europa, mas afirma que, sendo comprovada secção completa no caso polonês, não há nenhum relato anterior de sucesso semelhante. / COM AGÊNCIAS INTERNACIONAIS

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