Corazzol et al.
Corazzol et al.

Paciente em estado vegetativo há 15 anos apresenta melhora após estímulo em nervo

Após experimento com implante, paciente conseguiu abrir os olhos e até derramou lágrimas ao ouvir música favorita; técnica foi adaptada de tratamento para epilepsia e depressão

Fábio de Castro, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2017 | 21h07

Em Lyon , na França, um homem de 35 anos que estava em estado vegetativo há 15 anos, depois de sofrer um acidente de carro, apresentou sinais de consciência e até derramou lágrimas após receber um implante para estímulo elétrico do sistema nervoso.

O experimento teve seus resultados publicados nesta segunda-feira, 25, na revista Current Biology. Os estimuladores do nervo vago (ENV) - um nervo que conecta o cérebro a diversos órgãos do tórax e do abdome - é utilizado no tratamento de epilepsia e depressão. O novo estudo mostrou que o ENV também pode auxiliar na restauração da consciência de pacientes que estão há anos em estado vegetativo.

O resultado do experimento, segundo os autores do estudo, contradizem a crença amplamente aceita de que distúrbios da consciência que persistem por mais de um ano seriam irreversíveis. "Estimulando o nervo vago, mostramos que é possível melhorar a presença de um paciente no mundo", disse uma das autoras da pesquisa, Angela Sirigu, do Instituto de Ciências Cognitivas Marc Jeannerod, em Lyon (França).

O nervo vago é considerado importante para a capacidade de despertar, de se manter alerta e outras funções essenciais. "Nós vimos uma lágrimar correr em seu rosto enquanto ele escutava uma música que gostava", comentou Angela sobre as reações do paciente no plano emocional.

 

Para testar a capacidade do ENV para restaurar a consciência, os pesquisadores, liderados por Angela e por um grupo de médicos da equipe de Jacques Luauté, queriam selecionar um caso difícil, a fim de garantir que uma eventual melhora não pudesse ser explicada pelo acaso. Eles procuraram então um paciente que estivesse em estado vegetativo há mais de uma década sem sinais de melhoras.

 

Os neurocirurgiões implantaram um eletrodo no pescoço do paciente, próximo à artéria carótida, para estimular o nervo vago esquerdo. Um gerador de impulsos elétricos foi implantado sob a clavícula. Durante todo o dia e a noite, o paciente recebeu estímulos de 30 hertz, em ciclos de 30 segundos, seguidos de cinco minutos de descanso. A intensidade foi aumentada progressivamente.

A reação não foi imediata, mas, depois de um mês de estimulação do nervo vago, houve uma melhora considerável da atenção, dos movimentos e da atividade cerebral do paciente, segundo os cientistas. O homem começou a responder a ordens simples, algo que antes era considerado impossível. Ele conseguiu, por exemplo, seguir um objeto com os olhos e virar a cabeça quando lhe pediam. Sua mãe relatou uma melhora na capacidade de se manter acordado enquanto ouvia seu terapeuta lendo um livro.

Após a estimulação, os cientistas também observaram respostas a "ameaças", que antes estavam ausentes. Por exemplo, quando a cabeça do médico se aproximava repentinamente do rosto do paciente, ele reagia com surpresa, arregalando os olhos. Depois de muitos anos em estado vegetativo, ele entrou em um estado de mínima consciência.

Registros de sua atividade cerebral também revelaram mudanças importantes. O sinais teta do cérebro, importantes para distinguir entre estado vegetativo e consciência mínima, aumentaram consideravelmente em áreas do cérebro associadas ao movimento, à sensação e à consciência. 

O ENV também aumentou a conectividade funcional do cérebro. Uma tomografia por emissão de pósitrons mostrou aumento da atividade metabólica nas regiões corticais e subcorticais do cérebro.

A descoberta mostra que a intervenção certa pode render mudanças na consciência mesmo nos casos clínicos mais severos, segundo os pesquisadores. "A plasticidade do cérebro e a reparação do cérebro ainda são possíveis mesmo quando as esperanças parecem ter desaparecido", afirmou Angela.

Os cientistas agora estão planejando um grande estudo colaborativo para confirmar e ampliar o potencial terapêutico da ENV para pacientes em estado vegetativo ou de consciência mínima. 

Mais conteúdo sobre:
Cérebro Pesquisa Científica

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.