País tem os melhores fósseis de pterossauros

Brasil é privilegiado pela abundância de fósseis preservados em três dimensões

Herton Escobar,

13 Setembro 2010 | 23h59

"E aí meninas, esse pterossauro voa ou não voa?", pergunta o pesquisador Alexander Kellner às estudantes que trabalham na preparação do fóssil de um grande réptil voador, guardado no laboratório de paleontologia do Museu Nacional do Rio. Kellner estima que o bicho tenha tido até 8 metros de envergadura (distância de uma ponta da asa até a outra), o que faria dele o maior pterossauro conhecido do Hemisfério Sul.

 

Infográfico/AE

A espécie ainda não tem nome. Kellner espera concluir a preparação do fóssil neste ano e publicar um artigo descritivo em 2011, batizando-o oficialmente para a ciência. Assim deverá "nascer" a 27.ª espécie de pterossauro do Brasil, famoso no mundo todo pela qualidade de seus fósseis desse grupo.

China e Estados Unidos até têm mais espécies conhecidas, segundo Kellner, mas o Brasil é privilegiado pela abundância de fósseis preservados em três dimensões, provenientes da Chapada do Araripe, uma grande formação geológica na divisa dos Estados do Ceará, Pernambuco e Piauí. É de lá que veio o esqueleto do futuro gigante de 8 metros, assim como os de 25 das 26 espécies de pterossauros já descritas para o Brasil.

A preservação em 3D é possível graças à ocorrência de "nódulos calcários", um tipo de casulo rochoso que se formava em volta da carcaça de animais que morriam ali 110 milhões de anos atrás, quando no lugar da chapada havia uma laguna de fundo lamacento e sem oxigênio. O casulo impedia que os ossos fossem esmagados ao longo do tempo pelo peso das camadas sedimentares, preservando sua estrutura original - e também pedaços de tecidos moles, como pele e músculos, coisa raríssima na paleontologia.

É isso que faz da Chapada do Araripe - e principalmente da camada que preserva os sedimentos da tal laguna de 110 milhões de anos atrás, chamada membro Romualdo da Formação Santana - um dos sítios fossilíferos mais importantes do mundo. Especialmente para pterossauros e peixes, mas também para alguns dinossauros. O Santanaraptor placidus, um pequeno dinossauro bípede e carnívoro, foi descoberto ali, com pedaços de couro, músculo e vasos sanguíneos preservados. Assim como o Angaturama limai, outro bípede carnívoro, com 6 metros de comprimento. Ambos estão expostos ao público no Museu Nacional do Rio.

Outra camada importante do Araripe, chamada membro Crato, também é riquíssima em fósseis calcários, só que de um tipo "prensado", sem nódulos. Mais antiga (com 115 milhões de anos) e remanescente do leito de uma lagoa de água doce (e não salgada, como a do membro Romualdo), ela tem fósseis em abundância de insetos, peixes e plantas.

Crime. Muitas vezes, quem tira mais proveito dessa riqueza paleontológica não são os cientistas brasileiros, mas os caçadores e contrabandistas de fósseis, que atuam em tempo integral no Araripe - enquanto os pesquisadores só vão para lá ocasionalmente, quando conseguem recursos para uma expedição. Há vários exemplos de fósseis brasileiros descritos e depositados em coleções estrangeiras.

Qualquer fóssil achado no território nacional é um bem público, de propriedade da União. Não tem valor financeiro. A comercialização ou envio para o exterior é crime federal (tráfico). Para Kellner, é preciso fixar paleontólogos e estabelecer um programa contínuo de coleta e pesquisa no Araripe.

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