Paleontólogos apresentam maior dinossauro já encontrado no Brasil

Por falta de verbas, fóssil do Austroposeidon magnificus demorou 63 anos para ser estudado

Constança Rezende, O Estado de S. Paulo

05 Outubro 2016 | 15h40

RIO - A ossada de um titanossauro encontrado em 1953, na cidade de Presidente Prudente, no sudoeste de São Paulo, ficou por décadas trancada em uma gaveta do Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro. Até que um grupo de seis pesquisadores descobriu, há três anos, que se tratava do maior dinossauro já encontrado no País. 

A jornada do Austroposeidon magnificus, como foi batizado pela equipe, começou em 1953, quando um operário que trabalhava na construção da rodovia de acesso ao aeroporto da cidade, travou sua máquina em uma rocha. Ele não sabia, mas o impacto acabou danificando uma parte da vértebra do pescoço e da coluna vertebral do esqueleto do animal, que media aproximadamente 25 metros de comprimento, da ponta do focinho ao fim da cauda - maior que um ônibus articulado, como os que circulam nos corredores BRT.

Ignorando do que se tratava, o operário jogou os restos do titanossauro na beira da estrada, até ser coletado por Llewellyn Ivor Price, um dos principais paleontólogos brasileiros. Por falta de recursos e profissionais, o material ficou desde então dentro de um gaveta do museu, na Urca, zona sul do Rio. "Os pesquisadores também demoraram para dimensionar a importância e dar prioridade para a descoberta", admite um dos coordenadores do estudo, o paleontólogo Alexander Kellner.

Segundo o pesquisador, os estudiosos já desconfiavam que dinossauros gigantes poderiam ter vivido no País, já que o Brasil tem como vizinho a Argentina, onde foram descobertas inúmeras espécies.  "Só faltava a prova", disse Kellner.

Austroposeidon magnificus viveu em São Paulo há cerca de 70 milhões de anos atrás, em um ambiente de planície, rios grandes e árvores altas. Era terrestre e se alimentava de plantas. Tinha corpo bem desenvolvido, pescoço e cauda longos e um crânio comparativamente pequeno. A referência de Poseidon, o Deus grego do mar e do terremoto, foi feita por conta do impacto que a sua pisada deveria causar na terra.

Os pesquisadores do museu estimam que ele poderia pesar até 20 toneladas. As suas características são muito semelhantes à espécies argentinas também gigantes, como Mendozasaurus e Futalognkosaurus.  Os titanossauros viveram no período geológico Cretáceo, principalmente no supercontinente do Gondwana, que no passado reunia América do Sul, África, Índia, Antártica e Austrália.

No Brasil, já tinham sido descobertos oito titanossauros, mas nenhum que se enquadrasse na categoria de gigante. O maior, antes do Austroposeidon magnificus, era o Maxakalisaurus topai, com 13 metros de comprimento, que está montado no Museu Nacional da UFRJ, na Quinta da Boa Vista (São Cristóvão). Ao todo já foram descobertas 23 espécies de dinossauros no País. 

Segundo Kellner, a descoberta tem importância internacional. "O Austroposeidon magnificus servirá para os estudos sobre a distribuição geográfica dos dinossauros, já que muitas espécies gigantes também foram encontradas na Argentina. Não apenas contribui com novas informações anatômicas e evolutivas para os dinossauros, mas também mostra que espécies gigantes também reinavam no Brasil, há milhões de anos", disse. 

Uma das inovações no método da pesquisa foi o uso de um tomógrafo computadorizado para analisar a parte interna dos ossos do animal. A tecnologia revelou a presença de características novas para os titanossauros, tais como anéis de crescimento intercalados com um tecido ósseo mais denso. "É uma verdadeira mudança de métodos. Antes tínhamos a figura do paleontólogo trancado em sua salinha com um pincel analisando o material. Hoje temos a ajuda destas tecnologias", analisa Kellner.

 

 

Mesmo com a descoberta, o outro coordenador do estudo, Diogenes de Almeida Campos, chama atenção para o futuro da paleontologia no Brasil. "Um das grandes questões que o País precisa enfrentar é o desenvolvimento e manutenção do seu acervo e não só inaugurar obras. Não é comum um acervo ficar tanto tempo guardado, sem ser analisado. Outros países, como a Argentina, têm maior aparato. Há outros ossos descobertos, dentro da gaveta, precisando ser estudados", avisa. "Também há outras espécies para serem descobertas pelo País. Peço que divulguem para as pessoas para que fiquem atentas ao realizar obras de cortes de estrada ou e de busca a poços de água. Elas podem encontrar um novo dinossauro", disse, para um auditório de jornalistas e estudantes, na sede do museu.

O estudo, que custou cerca de R$ 10 mil, será publicado pela revista científica internacional Plos One. Ele foi parcialmente financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj) e pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). A pesquisa foi fruto de um esforço conjunto de pesquisadores do Museu de Ciências da Terra, Museu Nacional da UFRJ, Petrobras e da Universidade Federal de Pernambuco. A ossada e uma reconstrução do braço do animal, em tamanho natural, ficarão expostos a partir na sede do Museu de Ciências da Terra. 

 

 

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