Papa ressalta drama dos que sofrem em sermão da Sexta-Feira Santa

O drama dos imigrantes, dos pobres, dos doentes, dos idosos, desempregados e prisioneiros dominou o sermão da Sexta-Feira Santa do papa Francisco, no Coliseu, em Roma, no dia em que cristãos no mundo lembram a morte de Jesus crucificado.

PHILI, Reuters

18 Abril 2014 | 19h54

O papa, nos dias que antecedem a segunda Páscoa do seu pontificado, liderou a tradicional cerimônia da "Via Crucis" (Caminho da Cruz) ao redor das ruínas da Roma antiga.

Sentado em uma cadeira no Monte Palatino, em frente ao Coliseu, e muitas vezes ajoelhando-se para rezar, ele ouviu atentamente as meditações inspiradas nas 14 "estações da cruz" que foram lidas para a multidão de milhares de pessoas segurando velas.

Duplas de imigrantes, prisioneiros, sem teto, idosos, mulheres, deficientes, ex-dependentes de drogas e outros se alternavam carregando uma grande cruz entre as estações, que descrevem os principais acontecimentos das últimas horas de vida de Jesus.

As meditações deste ano foram escritas pelo arcebispo Giancarlo Maria Bregantini, que esteve na linha de frente na luta contra o crime organizado no sul da Itália e é um dos clérigos da Igreja mais socialmente progressistas do país.

Uma delas falava de "todos os erros que criaram a crise econômica e suas graves consequências sociais: insegurança no emprego, desemprego, demissões, uma economia que governa em vez de servir, especulação financeira, suicídio entre empresários, corrupção e usura e a queda da indústria local."

Outras citavam a situação das mulheres agredidas, crianças violentadas, s idosos solitários e confinados em casa, prisioneiros que sofrem torturas, vítimas do crime organizado e de agiotas.

LEITO DE DOR

"Hoje, muitos de nossos irmãos e irmãs, como Jesus, estão pregados a um leito de dor nos hospitais, em lares para idosos, em nossas famílias. É um tempo de dificuldades, com dias amargos de solidão e até mesmo desespero", dizia outra meditação.

Os participantes do evento foram convidados a ouvir o "clamor dos perseguidos, dos moribundos, dos doentes terminais..."

Em poucas palavras, no fim da cerimônia, Francisco exortou a multidão a "lembrar de todas as pessoas abandonadas" e falou sobre a "monstruosidade do homem" quando ele se deixa guiar pelo mal.

Esse foi o segundo evento da Sexta-Feira Santa de Francisco. Horas antes, o papa participou de um ato na Basílica de São Pedro, onde o pregador oficial do Vaticano disse que os enormes salários e a crise financeira mundial são males causados pela "fome amaldiçoada pelo ouro".

O ato religioso é uma das poucas vezes durante o ano em que o papa ouve outra pessoa pregar.

O padre Raniero Cantalamessa, cujo título é "pregador da Casa Pontifícia", fez o sermão em torno do personagem de Judas Iscariotes, que traiu Jesus por 30 moedas de prata, de acordo com a Bíblia.

"Por trás de todo o mal em nossa sociedade está o dinheiro, ou pelo menos em parte", afirmou Cantalamessa. "A crise financeira que o mundo atravessou e que este país (Itália) ainda está passando não é em grande parte causada pela fome amaldiçoada pelo ouro?", indagou.

"Não é também um escândalo que algumas pessoas ganham mega salários ou aposentadorias às vezes 100 vezes maiores do que os das pessoas que trabalham para eles? E que eles levantam a voz para se opor quando uma proposta é apresentada para reduzir o seu salário para o bem maior da justiça social?", afirmou.

O papa Francisco, que colocou como tema central do seu pontificado o apoio aos pobres, disse em dezembro que enormes salários e bônus eram sintomas de uma economia baseada na ganância e na desigualdade.

No sábado, o líder de 1,2 bilhão de católicos romanos celebrará uma missa de véspera de Páscoa na Basílica de São Pedro e no domingo fará a bênção "Urbi et Orbi" (à cidade e ao mundo).

Em 27 de abril, o papa Francisco vai canonizar o papa João Paulo II, que liderou a Igreja Católica entre 1978 e 2005, e o Papa João 23, que foi pontífice de 1958 a 1963 e convocou o Concílio Vaticano Segundo, um importante encontro que modernizou a Igreja.

Centenas de milhares de pessoas devem ir a Roma para as canonizações, a primeira vez que dois papas serão declarados santos ao mesmo tempo e a primeira canonização de um papa desde 1954.

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