Reuters
Reuters

Papa tenta equilibrar política e religião em visita à Terra Santa

Bento XVI quer buscar paz no Oriente Médio e aproximar cristianismo, judaísmo e islã

Efe,

07 de maio de 2009 | 16h32

A dualidade de Bento XVI como líder da Igreja Católica e chefe de Estado do Vaticano concede à próxima visita do pontífice à Terra Santa uma dimensão política e de diálogo inter-religioso, duas chaves fundamentais para resolver o conflito do Oriente Médio.

 

Veja também:

link Papa diz estar 'ansioso' para iniciar peregrinação

 

A Terra Santa é formada por Israel, Cisjordânia e partes da Jordânia.

 

"Este é o terceiro papa a visitar a Terra Santa desde São Pedro, porque até Paulo VI, em 1964, nenhum tinha feito isso", disse à Agência Efe o vice-guardião dos Lugares Santos, o franciscano espanhol Artemio Vítores.

 

Nesse sentido, Bento XVI tocará as "pedras" do Cristianismo, das "comunidades que remontam aos primeiros dias" de Jesus, nas palavras de Wadie Abu Nasr, coordenador de comunicação em Jerusalém para a visita do papa.

 

O pontífice começará a peregrinação na sexta-feira, 8, com uma estadia de três dias na Jordânia, e no dia 11 seguirá para Israel e aos territórios palestinos, a fase mais delicada da viagem, por razões políticas e religiosas.

 

O mero fato de viajar acompanhado exclusivamente de uma das partes, israelense ou palestina, a algum dos lugares santos pode causar receios e ferir sensibilidades não só religiosas.

 

Abu Nasr e os demais porta-vozes religiosos e políticos coincidem em que o papa não é "um peregrino mais", não só pelo lugar que ocupa na Igreja, mas também por sua condição de chefe de Estado.

 

"Quem se reunirá com o presidente de Israel, Shimon Peres, não é só o chefe da Igreja Católica, é também o chefe de um Estado, o Estado Vaticano", ressalta Yigal Palmor, porta-voz israelense de Exteriores.

 

E é desempenhando as duas funções que Bento XVI deseja fornecer à viagem uma dimensão política relacionada com a busca da paz no Oriente Médio, e outra interconfessional, com o objetivo de aproximar as três religiões monoteístas: cristianismo, judaísmo e islã.

 

A princípio, "todas as visitas do papa são pastorais", confirma Abu Nasr, mas, com esta, o Vaticano também procura "promover o diálogo inter-religioso com judeus e muçulmanos" e "a paz (em suas conversas) com os líderes políticos".

 

Até a década passada, o Vaticano via a si mesmo como parte no conflito do Oriente Médio e defendia a internacionalização de Jerusalém como única saída possível às reivindicações das três religiões monoteístas.

 

Sem ter abandonado esta posição oficialmente, a diplomacia católica parece ter se inclinado a favor de uma solução bilateral entre israelenses e palestinos e que, ao mesmo tempo, não sacrifique os interesses da Igreja na região.

 

Durante a viagem, Bento XVI deve se referir à necessidade de paz para a Terra Santa, para muitos "inalcançável" se não forem levados em conta também os aspectos religiosos do conflito.

 

"Há uma clara mensagem na agenda do papa, porque a religião tem um papel importante na resolução do conflito", explicou Daniel Rossing, diretor do Centro de Jerusalém para as Relações Judaico-Cristãs.

 

Para esta instituição, qualquer solução exclusivamente política ao conflito israelense-palestino - como foram os Acordos de Oslo - está destinada ao fracasso, "porque o vazio espiritual abre espaço para que os extremistas" atropelem essas resoluções.

 

No plano estritamente interconfessional, as visitas previstas de Bento XVI ao Muro das Lamentações - principal santuário judeu - e à Esplanada das Mesquitas - onde fica localizada a terceira mesquita em importância para o Islã - representam, em si, um gesto de aproximação.

 

"Este é um papa muito próximo ao povo judeu, é um apaixonado pelo antigo testamento e um dos objetivos desta viagem é o diálogo interconfessional", afirmou o franciscano Vítores à Efe.

 

Neste complexo emaranhado político-religioso, "o papa precisará guardar um delicado equilíbrio", adverte Rosin, porque o mínimo deslize pode acender o pavio da intolerância.

 

Pio XII e Richard Williamson

 

A viagem do papa também envolve outro ponto delicado, que é a polêmica envolvendo a negação do Holocausto por parte de um bispo e a exposição de uma imagem de Pio XII no Museu do Holocausto em que o ex-pontífice é acusado de se calar frente ao genocídio nazista.

 

O bispo de Roma, que já visitou a Terra Santa em 1964, quando era sacerdote, e em 1992 e 1994 como cardeal, volta à região em meio a complicadas negociações do processo de paz entre israelenses e palestinos e sem que se tenham resolvido os problemas entre Israel e a Santa Sé no "Acordo Econômico", que deve estabelecer os direitos e os deveres das comunidades católicas em Israel sobre impostos e propriedades.

 

Mas a peregrinação, segundo definição do Vaticano, está precedida pelo escândalo suscitado pelo bispo tradicionalista Richard Williamson e as duras críticas de Israel à Santa Sé por esta participar da recente cúpula da ONU sobre racismo, na qual o presidente do Irã acusou o Estado judeu de "racista".

 

Williamson, um dos quatro bispos que teve sua excomunhão suspensa por Bento XVI em janeiro último, negou, coincidindo com o gesto papal, as câmaras de gás e disse que só 300 mil judeus e não seis milhões morreram nos campos de concentração nazistas.

 

Suas declarações puseram em pé de guerra a comunidade judaica internacional e desencadearam uma onda de críticas ao Vaticano e ao papa, algumas oriundas de destacados dirigentes europeus, como a chanceler alemã, Angela Merkel.

 

O Grande Rabinato de Israel rompeu relações com o Vaticano. Rabinos denunciaram que com Bento XVI a Igreja está cancelando 50 anos de diálogo iniciado por meio do Concílio Vaticano II.

 

Bento XVI se viu obrigado a condenar mais uma vez o Holocausto. A comunidade judaica agradeceu suas palavras e a polêmica acabou superada em parte.

 

Mas semanas depois outra tempestade começou, evidenciando como, apesar das boas palavras, o receio subsiste nas relações entre ambos os Estados: Israel criticou duramente o fato de a Santa Sé comparecer à cúpula da ONU sobre racismo em Genebra, e também de seu representante não abandonar a sala de reuniões quando o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, chamou Israel de "racista".

 

Novamente o Vaticano teve de se defender, assinalando que a conferência era uma ocasião para a "luta contra o racismo e a intolerância". A Santa Sé criticou ainda as palavras de Ahmadinejad, considerando-as "inaceitáveis e extremistas".

 

Ao que tudo indica, essa polêmica também foi superada. Mas algo ainda incomoda o Vaticano: as críticas de judeus ao papa Pio XII, que liderou a Igreja Católica durante o nazismo.

 

Pio XII é acusado de ter sido antissemita e de não ter elevado a voz com mais força contra Hitler, algo que foi sempre negado pelo Vaticano.

 

No Memorial do Holocausto de Jerusalém há uma fotografia de Pio XII com uma polêmica epígrafe na qual o ex-pontífice é acusado de ter se calado enquanto milhões de judeus eram conduzidos aos campos de extermínio.

 

Líderes religiosos católicos pediram ao papa que não viajasse a Israel até que o Estado judeu tirasse essa foto, algo que não aconteceu até agora.

 

No final, os organizadores da viagem papal chegaram a um meio termo: Bento XVI visitará o memorial, mas não a sala que abriga a imagem e a epígrafe dedicadas a Pio XII. Israel e Vaticano estabeleceram relações diplomáticas em 1993.

 

Questões terrenas

 

A visita de Bento XVI à chamada Terra Santa desperta inúmeras dúvidas terrenas, como as que envolvem as formas de acesso do papamóvel, o modo de se conseguir ingressos para as missas ou detalhes de seu percurso pelo Museu do Holocausto.

 

Despontando como um dos principais acontecimentos do ano, a visita de Bento XVI levanta enormes expectativas em várias questões, que não só tem em foco a reduzida comunidade cristã local ou os devotos que farão peregrinações, mas também círculos políticos israelenses e palestinos, órgãos de segurança e a imprensa.

  

 

 

O papa aterrissará no aeroporto Ben Gurion, próximo a Tel Aviv, em voo da companhia israelense El Al, e se deslocará a Jerusalém, onde será recebido pelo presidente de Israel, Shimon Peres.

 

Ratzinger visitará posteriormente o Museu do Holocausto, parada obrigatória a qualquer chefe de Estado quando em Israel. No entanto, e por se tratar de um pontífice alemão, o comparecimento está carregado de simbolismo.

 

No memorial, que recebe o nome hebraico de Yad Vashem, Bento XVI prestará homenagem aos seis milhões de judeus assassinados pelos nazistas e seus aliados.

 

Com aproximadamente 40 minutos previstos, a visita terá seu ápice no "Hall da Memória", onde fará uma oferenda e aumentará a chama que há sobre o solo de cimento e onde é possível ler os nomes de todos os campos de concentração nazistas.

 

"No local, (o papa) se encontrará com seis sobreviventes do Holocausto e pronunciará algumas palavras", explicou à Agência Efe a porta-voz da instituição, Esti Yaari.

 

Alguns críticos afirmaram que a duração da visita a transforma em "meramente protocolar" ou de "cortesia", e de menor expressão que a realizada pelo antecessor de Bento XVI, João Paulo II, em 2000.

 

Na sombra está a polêmica que ainda põe em lados opostos Vaticano e Museu do Holocausto por uma imagem do papa Pio XII e uma epígrafe que acusa este de passividade diante da perseguição de judeus por parte dos nazistas.

 

Sobre a polêmica, o museu constata que existem conversas em andamento, embora enfatize que o pontífice não visitará a sala em questão.

 

A respeito, o diretor do Centro de Jerusalém para as Relações Judaico-Cristãs, Daniel Rossing, acredita que se trata de uma "questão muito complexa", embora sobre a duração da visita se pergunte retoricamente "quanto tempo seria o suficiente?".

 

Ainda falta resolver a questão das entradas para as missas e cerimônias religiosas que o papa celebrará durante sua estadia. A maior das missas ocorrerá em Nazaré no dia 14, com 40 mil pessoas sendo aguardadas.

 

A imprensa poderá ter acesso às informações e imagens da visita de Bento XVI graças a um pool em cada momento e local, de cuja gestão não se encarrega a Igreja mas as autoridades de cada país ou território que venha a ser visitado pelo papa.

 

Dois veículos blindados popularmente conhecidos como papamóvel serão utilizados pelo pontífice em Israel e nos territórios palestinos, e um terceiro na Jordânia, enquanto órgãos de segurança israelenses estudam o itinerário a ser percorrido por Bento XVI na Cidade Antiga de Jerusalém, com vielas estreitas e ruas de pedra.

Tudo o que sabemos sobre:
religiãoBento XVIviagem

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.