Gregorio Borgia/AP
Gregorio Borgia/AP

Para amigos, Bergoglio é 'sóbrio'; aos olhos dos inimigos, 'traiçoeiro'

Novo papa foi ordenado sacerdote aos 33 anos e, aos 36, já comandava os jesuítas na Argentina

O Estado de S. Paulo,

13 Março 2013 | 16h48

Low profile, calado, sóbrio e frugal são alguns dos adjetivos usados por seus mais fiéis colaboradores. Seus inimigos, no entanto, preferem defini-lo como calculista, frio, traiçoeiro e autoritário. Mas, para a maioria dos argentinos, o cardeal Jorge Mario Bergoglio é simplesmente um mistério. Nos últimos dias, no entanto, ele saiu de seu semi-anonimato para virar um dos homens mais comentados do país.

A escolha do hermético Bergoglio, que se tornou o primeiro latino-americano a ocupar o trono de São Pedro, também quebra a restrição - implícita - de que um jesuíta nunca seria transformado em papa. Desde que foi criada, há quase cinco séculos, a outrora poderosa Companhia de Jesus jamais havia conseguido que um representante chegasse a líder da Igreja Católica, principalmente pela oposição de outras congregações que temiam seu crescimento.

Homem afável, mas de poucas palavras e de nenhum contato com a imprensa (desde que foi nomeado cardeal, em 2001, deu só uma entrevista ao jornal La Nación), o primaz faz questão de manter um profundo silêncio sobre sua vida. Aqueles que o conhecem bem sustentam que só mostra intensa paixão quando fala de Fiodor Dostoievski, seu escritor preferido.

"É um jesuíta até a medula. Ele fala pouco. Ouve o dobro do que fala. E pensa o triplo do que ouve", afirmou ao Estado um ex-embaixador argentino em Roma, que completa dizendo que jamais desejaria ter Bergoglio como inimigo. Com ironia, explica: "Quem vive, como Bergoglio, só à base de frango cozido e verduras, só pode ser um cara perigoso."

Filho de imigrantes italianos (seu pai era ferroviário e sua mãe, dona de casa), o cardeal nasceu no dia 17 de dezembro de 1936 no bairro de classe média de Flores, em Buenos Aires. Desde criança, foi torcedor fanático do time de San Lorenzo, fundado por um padre no início do século. Mas nunca pôde aspirar a jogar futebol além da praça do bairro. Seu físico, quando adolescente, era franzino. Aos 20 anos, passou por uma grave operação para a retirada de um de seus pulmões.  Segundo vaticanistas, isso poderia pesar negativamente contra sua candidatura no conclave.

Após se formar como técnico químico e encerrar o namoro com uma vizinha, Bergoglio entrou para a Companhia de Jesus, ordem caracterizada por sua obediência e disciplina ascética que historiadores preferem definir como militar.

 

Ordenado sacerdote aos 33 anos, aos 36 já era o comandante dos jesuítas na Argentina. Nos anos que se seguiram - as décadas de 1970 e 1980 -, paira uma nebulosa sobre a vida de Bergoglio. Jornalistas investigativos argentinos sustentam que ele colaborou ativamente com a última ditadura (1976-83), delatando os jovens sacerdotes, que foram sequestrados pelos militares.

Ostracismo. Nos anos 80, Bergoglio migrou ao setor mais conservador da Companhia de Jesus e passou por um obscuro ostracismo na Alemanha. Ao voltar à Argentina, foi posto em cargos de baixa importância. Esse período só terminou quando, em 1992, o poderoso cardeal Antonio Quarracino o convocou para ser seu bispo auxiliar em Buenos Aires. "É um jesuíta sereno e preciso.  Ele tem uma capacidade e uma velocidade mental fora do comum", comentou.

O salto internacional de Bergoglio ocorreu em 2001, quando ocupou o posto de relator-geral do Sínodo dos Bispos em Roma. Bergoglio é idolatrado pelo clero jovem e, até poucos anos atrás, só se deslocava pela cidade em metrô ou ônibus. Seus admiradores afirmam que o fazia "para estar perto do povo". Os críticos sustentam que era "puro populismo". 

Os parlamentares da esquerda, que se confrontaram com frequência com Bergoglio por questões como a legalização do aborto, o definem como "o pior dos inimigos, porque é um inimigo muito inteligente". No entanto, o cardeal também os desconcerta ao realizar furiosos ataques contra o neoliberalismo.

Esta é a segunda vez que a Argentina contou com um papável. O anterior foi o arcebispo de Mar del Plata, cardeal Eduardo Pironio, morto em 1996, que nos dois conclaves de 1978 despontava como o principal papável sul-americano.

O sociólogo e especialista em catolicismo Fortunato Mallimacci considera que o papado de Bergoglio não deve ser "muito diferente do de João Paulo II".  Segundo ele, "do ponto de vista doutrinário, frustraria as aspirações de muitos católicos que estão esperando uma ampla abertura".

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