Para especialistas, Rodoanel induzirá ocupação dos mananciais

Organizado pela Câmara Técnica do Comitê de Bacia do Alto Tietê, o seminário Rodoanel & Mananciais reuniu especialistas de várias áreas para discutir os impactos ambientais do empreendimento. No centro do debate, que aconteceu hoje, no Instituto de Engenharia, em São Paulo, estava a maior polêmica em relação à continuidade das obras: seu traçado sobre as regiões de mananciais da Região Metropolitana de São Paulo - sistemas Billings e Guarapiranga, no trecho Sul, e Cantareira, no trecho Norte.Os resultados do seminário, que contou com a presença do presidente da Dersa, Sérgio Luiz Pereira, responsável pela implantação do projeto, serão apresentados ao Plenário do Comitê Alto Tietê, no próximo dia 12, e servirão de subsídios para uma posição desse colegiado sobre o assunto. Apesar de não questionarem a importância de se ter um anel viário ligando as dez rodovias que convergem para São Paulo, os participantes apresentaram preocupação com o traçado e a falta de ligação do projeto com outras políticas metropolitanas, como saneamento, transportes, meio ambiente e habitação.Segundo Luiz Carlos Costa, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU/USP), ?é até escandaloso o Governo apresentar o Rodoanel como uma proposta setorial, fora de um plano metropolitano, já que é um projeto indutor de urbanização?. Para o urbanista, a única maneira de neutralizar os efeitos de um empreendimento como esse seria com uma conjunção de esforços dos governos estadual e municipais e sociedade civil. ?Mas como uma obra setorial essa participação fica difícil e será fatal o efeito absolutamente contrário à proteção dos mananciais?.Para o professor da USP, falta clareza dos órgãos estaduais sobre o efeito indutor de ocupação do Rodoanel. ?Já se vende imóveis por conta da construção do Rodoanel. Se isso não era para acontecer, tem que ficar evidente para todos os setores, caso contrário a ocupação virá, seja em forma de invasões ou de projetos capitalizados?.Na opinião do engenheiro Luiz Célio Bottuna, do Instituto de Engenharia, dizer que será uma rodovia fechada (com acessos restritos) também não é garantia. ?Nunca se conseguiu ter uma rodovia fechada em São Paulo. Apenas a Bandeirantes continua, mais ou menos, segundo o projeto original. Um bom exemplo do que acaba acontecendo são dos bairros cota na Serra do Mar?.Uma das sugestões para evitar impactos da obra nos mananciais, segundo a arquiteta Sânia Baptista, da Companhia de Engenharia de Tráfego da Prefeitura de São Paulo, seria a destinação de investimentos complementares ao Rodoanel, que permitissem uma política de desenvolvimento urbano nos municípios da Região Metropolitana e a criação de uma rede de parques que bloqueassem realmente as regiões que precisam ser preservadas. Para tanto, propõe uma maior participação dos municípios desde a definição do projeto, com discussão de acessos e de melhorias nas vias intermediárias, entre a rodovia e as vias urbanas. TrânsitoA maior preocupação de Sânia, porém, é em relação ao trecho Norte do Rodoanel. ?O projeto apresentado pela Dersa fica muito próximo da captação do Sistema Cantareira, que abastece 60% da população da Região Metropolitana, e muito longe da Marginal Tietê, que continuará sendo o caminho preferencial?, disse.Segundo a arquiteta, para haver impacto no trânsito de São Paulo, o Rodoanel só terá sentido se for implantado por inteiro e com um traçado bem discutido. ?Caso contrário, estaremos apenas empurrando os congestionamentos para outros locais. A velocidade média nos horários de pico na cidade não foi alterada com trecho Oeste do Rodoanel?.Os especialistas apresentaram, ainda, alternativas de intervenções viárias que teriam impactos maiores sobre o tráfego na região, com menores investimentos e sem impactos ambientais. Uma delas seria a ligação da avenida Águas Espraiadas até a Imigrantes. ?O traçado do Rodoanel foi escolhido para evitar desapropriações e diminuir custos. Assim, passa pelas últimas áreas livres da Região Metropolitana?, diz Renato Tagnin, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente de São Paulo.Segundo Tagnin, ?o traçado proposto forma quase um corredor ecológico, ao contrário, pegando o cinturão verde de São Paulo. Terá um grande impacto nas águas ainda limpas e nas áreas de escape, o que pode aumentar as enchentes. A região dos mananciais já exige investimentos inimagináveis sem o Rodoanel, por isso corremos o risco de estarmos apagando um incêndio com gasolina?.Um exemplo prático dos efeitos do Rodoanel nos mananciais foi discutido no Seminário Billings 2002, que reuniu quase 200 especialistas para propor a recuperação da represa. Conforme Marússia Whately, do Instituto Socioambiental, uma das coordenadoras do evento, os participantes apontaram impactos diretos do empreendimento em 21% da Bacia Hidrográfica da Billings, abrangendo 15 áreas prioritárias para intervenção, que totalizam 12 mil hectares. Dessas, sete áreas são de extrema importância para o abastecimento público, como a captação da Sabesp no Rio Grande e a interligação entre a Anchieta e a Imigrantes, onde a pressão de expansão urbana já é uma realidade.

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