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Para Vaticano, papiro ‘não muda nada’

Fragmento que diz que Jesus Cristo era casado gerou ceticismo na Igreja e novas hipóteses

19 Setembro 2012 | 22h30

O Vaticano demonstrou ceticismo a respeito da possibilidade de Jesus Cristo ter sido casado, hipótese levantada mais uma vez após ser revelado anteontem em Roma um fragmento aparentemente autêntico de papiro do século 4.º no qual Jesus menciona a frase “minha mulher”.

“Não se sabe de onde veio esse pedacinho de pergaminho”, disse ontem o porta-voz da Santa Sé, Federico Lombardi. “Mas isso não muda em absoluto a posição da Igreja, que se baseia em uma imensa tradição, muito clara e unânime. Não muda nada a visão de Cristo e dos evangelhos. Esse acontecimento não tem influência alguma sobre a doutrina católica”, reiterou.

O fragmento em questão foi revelado pela historiadora Karen King, da Universidade Harvard, que o recebeu em dezembro de um colecionador americano que permanece no anonimato. Após meses de análise e consultas a especialistas em papiros e no idioma copta – surgido no Egito antigo –, acredita-se que o documento seja genuíno, mas, como lembra Karen, não se trata de uma prova de que Jesus teria sido casado.

Mesmo assim, há quem duvide da autenticidade do papiro, como Giovanni Maria Vian, também historiador e o diretor do jornal do Vaticano, o Osservatore Romano. “Na tradição da Igreja não se conhece nenhuma menção a uma mulher de Jesus.” Para ele, pode ser um fragmento de um evangelho apócrifo de inspiração gnóstica.

Mesma opinião tem o franciscano frei Jacir de Freitas Faria, autor de seis livros sobre os evangelhos apócrifos e professor de Exegese Bíblica e Hermenêutica de Textos Antigos, no Instituto Santo Tomás de Aquino, em Belo Horizonte. “Parece que estamos diante de um texto gnóstico cristão, na linha de documentos anteriores gnósticos, corrente de pensamento que acreditava na salvação pelo conhecimento”, afirma frei Jacir.

 

Para ele, pode ser um pedaço perdido do evangelho apócrifo de Maria Madalena, do ano 150, do qual faltam seis páginas. Documentos mais antigos, também de origem egípcia e escritos em língua copta, já apresentavam Maria Madalena como companheira de Jesus. O apócrifo Perguntas de Maria admite que Madalena era amante, parceira sexual ou esposa carnal de Jesus.

“A Maria Madalena desses textos, mulher que exerceu forte liderança entre os apóstolos, sendo a discípula amada de Jesus, não é a prostituta com quem foi identificada, no século 6.º, por São Gregório Magno”, lembra frei Jacir.

Mas a própria Karen King afirmou ontem que, se Jesus foi mesmo casado, dificilmente teria sido com Maria Madalena. Isso porque as mulheres daquele tempo eram quase sempre identificadas por sua relação com um homem, enquanto Maria é sempre identificada pela sua cidade natal, Magdala.

Dúvida. Para o teólogo brasileiro, saber se Cristo se casou continua sendo questão aberta e controversa por suas implicações. “A descoberta desse papiro mantém em pauta o celibato do clero e a liderança apostólica da mulher, que foi proibida de ensinar, exorcizar, batizar, distribuir a eucaristia na Igreja e receber a ordenação sacerdotal.”

Admitindo-se que Jesus tenha sido casado e tido filho, outra questão embaraçosa se apresenta. Se Cristo era ao mesmo tempo Deus e homem, seu filho também não teria de ter natureza divina e humana? Frei Jacir diz que sim e imagina a confusão que essa questão provocaria, “pois seria como se tudo estivesse começando de novo”. / AFP e AP. COLABOROU JOSÉ MARIA MAYRINK

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