Parlamento Europeu cancela participação oficial na Rio+20

Logística cara e negociações estagnadas são as razões apontadas por deputado holandês

Andrei Netto CORRESPONDENTE / PARIS ,

09 Maio 2012 | 20h06

 Na terça-feira, 8, o Parlamento Europeu anunciou a intenção de cancelar o envio de uma delegação de deputados à conferência Rio+20, a ser realizada em junho, no Rio de Janeiro. Enquanto chefes de Estado e de governo como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, buscam desculpas de toda ordem para evitar a viagem ao Brasil, temendo mais um fracasso envolvendo discussões diplomáticas sobre meio ambiente, o Parlamento Europeu é mais prosaico: decidiu não enviar representantes diante do alto custo das hospedagens no Rio.

Gerben-Jan Gerbrandy, holandês representante do grupo liberal-democrata no legislativo, chegou a publicar uma nota protestando contra os preços exigidos pela rede hoteleira do Rio.

Segundo ele, alguns hotéis chegam a pedir € 600 - ou R$ 1,5 mil - por noite. Outros exigem que um mínimo de seis ou até 10 noites sejam pagas, mesmo quando o hóspedes não pode ficar mais dois dias na cidade.

Só nas diárias não aproveitadas, o desperdício da comitiva parlamentar seria de € 40 mil.

Em tempos de rigor e crise econômica, este seria um desperdício inexplicável para o contribuinte europeu, diz Gerbrandy, coordenador adjunto da Comissão de Meio Ambiente e membro da Comissão de Controle Orçamentário da instituição. Para o deputado, pior do que os problemas logísticos, só mesmo as negociações políticas na Rio+20. A seguir, a entrevista concedida ontem ao Estado.

Por que o senhor não vai ao Brasil?

O que está acontecendo é muito decepcionante. Não acontece com frequência de o Parlamento Europeu cancelar a viagem de uma delegação por questões financeiras. Mas o fato é que alguns hotéis no Rio de Janeiro estão cobrando taxas absurdas de nossas delegações. Há casos de representantes que ficariam apenas dois dias, mas são obrigados a pagar por seis. Isso é absurdo.

Em tempos de contenção de gastos na Europa, não seria inteligente, nem compatível com nossa postura política compactuar com isso.

Como foi feita a seleção de hotéis com os quais vocês entraram em contato?

A Comissão europeia coordena tudo, na realidade. Ela nos deu opções de hotéis cujos preços custavam 600€ por dia. Como disse, alguns desses hotéis cobravam por estadas de dois dias o preço de até sete noite. Seria uma delegação cara demais. Temos de ser responsáveis.

Esse é um problema enfrentado apenas pelo Parlamento Europeu?

Não. Nós sabemos que a Comissão Europeia também está tendo problemas nesse sentido. Bruxelas teria uma grande delegação, mas neste momento estão cortando nomes para reduzir os custos. Sei que ONGs também estão procurando alternativas para cortar seus custos. Há pessoas pedindo hospedagens a amigos ou alugando apartamentos. Não faz sentido. Além disso, como parceiros que somos, nós, do Parlamento Europeu, teríamos de trabalhar em locais próximos dos representes da Comissão Europeia.

Algumas opções que verificamos nos colocariam em locais muito distantes, às vezes a uma hora de viagem. Além dos preços, ainda enfrentaríamos problemas logísticos.

Como se deu a decisão de cancelar a participação dos deputados europeus?

Duas semanas atrás decidimos ter uma delegação de um homem só. Mas, convenhamos, seria absurdo demais. Então decidimos pelo cancelamento.

Já está decidido que não haverá uma delegação oficial. Eu ainda penso em ir, de forma não-oficial. Terei de pagar do meu bolso, mas estou disposto a ir, até porque estou convidado a participar de algumas conferências. Outros deputados também pensam em ir financiando de seus próprios bolsos. Mas infelizmente a Rio_20 está se tornando uma grande oportunidade perdida para mudar nossa economia e fazer escolhas em direção a um desenvolvimento mais sustentável.

O senhor vê essas questões logísticas como um mau sinal para a conferência?

É um mau sinal para a conferência Rio+20, sem dúvida. Mas há notícias bem piores. As negociações estão indo mal. O foco mudou das questões de meio ambiente para questões sociais. Isso significa que a questão central das Nações Unidas, que era o meio ambiente, está ficando de lado. Temos de procurar novas formas de desenvolvimento sustentável, de uma economia mais responsável. Mas o que vemos é uma discussão sobre questões sociais, importantes, é claro, mas não centrais para uma conferência desse tipo.

O senhor diria que os rumos das negociações influenciaram na decisão do Parlamento de não enviar representantes?

Não é decisivo. Foi antes de mais nada por causa dos custos. Mas sabemos que os rumos das negociações são uma questão decisiva para que gente como a chanceler da Alemanha, Angela Merkel, decida não ir. Ninguém mais está esperando pela tomada de decisões na Rio+20, porque líderes mundiais não irão, diante do fato de que não se apresentam soluções concretas. Barack Obama, Joe Biden e até Hillary Clinton está cogitando não ir. É uma péssimo sinal, porque precisamos do comprometimento de nossos maiores líderes.

De acordo com suas informações, quem mais está desistindo de comparecer?

Já sabíamos que David Cameron, primeiro-ministro do Reino Unido, não iria. Nick Clegg, seu vice, irá. Angela Merkel não irá. François Hollande, o presidente eleito da França, não é certo. Helle Thorning-Schmidt, a premiê da Dinamarca, vai. Mas se gente do peso de Merkel não irá, ficará mais fácil para outros chefes de Estado e de governo, como o do Japão ou o da Austrália, dizer que não irão.

Qual é o papel do governo do Brasil nos rumos das negociações da

Rio+20?

O governo brasileiro desempenha um papel central nessas negociações. No início, o país não desempenhou uma função muito construtiva. Creio que Brasília tenha um cenário de urgência para reverter o impasse e aparecer como o salvador da conferência no final. Mas não creio que isso acontecerá. O Brasil não está mostrando a liderança que precisaríamos para chegar a uma conclusão construtiva.

Há outros países com um peso negativo sobre as negociações?

Os Estados Unidos estão claramente tendo um desempenho negativo, porque não estão interessados em grandes decisões relativas a meio ambiente em um ano eleitoral decisivo para o presidente Barack Obama.

Eu diria que não estamos indo muito bem.

O senhor acredita que haja de reverter os problemas logísticos aos quais o senhor se refere?

Creio que sim. Ainda há tempo de falar com a rede hoteleira e mudar o cenário. O Brasil vai organizar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos. Parece muito claro que os hotéis têm o monopólio da situação. E sem o tem, é preciso que o governo intervenha.

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