Unesp Rio Claro
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Pássaro 'mochileiro' viaja por 3 mil quilômetros de SP até Amazônia, mostra estudo

Roteiro feito pelo animal ficou conhecido pelos cientistas por causa de GPS; pesquisadores não sabiam destino do bicho no inverno

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2020 | 14h00

SOROCABA – Um bem-te-vi-rajado, avezinha que pesa 50 gramas, deixou a cidade de Rio Claro, no interior paulista, em 2019, viajou três mil quilômetros durante 30 dias até a Floresta Nacional da Mulata, no norte do Pará, em plena Amazônia, para retornar seis meses depois ao mesmo lugar de onde partiu. O roteiro feito pelo pássaro só se tornou conhecido porque o bem-te-vi levava presa às costas uma mochila com mini-GPS do tamanho de uma moeda de 5 centavos, pesando 1 grama, colocada por pesquisadores. O equipamento foi recuperado e os dados que recolheu revelaram a saga do passarinho.

A viagem do pássaro ‘mochileiro’ faz parte de um estudo sobre a rota migratória de pássaros comuns na paisagem urbana da capital e interior de São Paulo coordenado pela pesquisadora Karlla Barbosa, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Rio Claro. Segundo ela, a jornada do bem-te-vi-rajado (Myiodynastes maculatus) revela um fenômeno que até então não era conhecido. “Sabíamos que essa espécie, muito comum em jardins e parques de São Paulo, desaparecia de algumas regiões durante o outono e o inverno, o que indicaria uma migração. Mas o que acontece? Para onde vão? Isso ainda era desconhecido.”

Ela conta que, ao baixar os dados do GPS, se surpreendeu com a jornada do passarinho no período do inverno paulista. “Através dessa pesquisa, iniciada em 2016, também já sabemos que, apesar de ir tão longe, em mais de 50% das vezes os bem-te-vis rajados retornam na primavera para o mesmo local, muitas vezes para a mesma árvore.” Outra ave que foi capturada no Parque do Carmo, na cidade de São Paulo, fez uma viagem ainda mais longa, chegando até a Floresta Nacional de Roraima e o Amapá. O pássaro saiu no dia 10 de março de São Paulo e chegou ao Amapá em 19 de abril, 40 dias depois.

Segundo a pesquisadora, o estudo revelou que, mesmo um pássaro pequeno, que vive até nos parques urbanos, depende da conservação dos diferentes biomas do Brasil, principalmente da Amazônia, onde ele passa parte de sua vida. “Mesmo que seus territórios em Rio Claro e São Paulo sejam preservados, o desmatamento e as queimadas na Amazônia, no Cerrado e ao longo da sua rota migratória, certamente são uma ameaça à sua sobrevivência. Ou seja, um passarinho que vemos em nossa vizinhança urbana depende da conservação de ambientes naturais em diferentes partes do território para sua sobrevivência.”

Karlla faz uma analogia entre o estudo feito com o bem-te-vi-rajado e aqueles que já evidenciaram a importância da floresta amazônica para a manutenção dos ciclos das chuvas e para o controle do clima no país e em grande parte do planeta. “Agora sabemos que o bem-te-vi-rajado, que mora aqui no nosso quintal, também é um mensageiro da importância da Amazônia.” A pesquisa da Unesp teve apoio da Capes, órgão de fomento à pesquisa ligado ao Ministério da Educação, e de instituições americanas que forneceram os equipamentos, como a Idea Wild e a Universidade de Indiana. O trabalho teve orientação do cientista Alex Jahn e apoio de voluntários para localizar os pássaros.

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