Paulo Liebert/AE
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Patriota é contra mais barreiras comerciais

Para ministro, agenda de desenvolvimento sustentável não deve criar ‘obstáculos’

Glauber Gonçalves e Mariana Durão, do Rio,

14 Junho 2012 | 22h30

Diante de uma plateia de empresários na Rio+20, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Antonio Patriota, afirmou que é preciso estar atento para não transformar objetivos futuros de desenvolvimento sustentável em barreiras comerciais. A afirmação veio em resposta à preocupação externada pelo presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Robson Andrade, de que seja criado um “protecionismo verde”.

“Temos de advertir para esses riscos. Mas há um sentimento disseminado, não apenas no Brasil, de que estamos numa agenda positiva e não podemos criar condicionalidades, empecilhos e obstáculos”, disse Patriota. O ministro destacou que a agenda na Rio+20 é de objetivos que congreguem, somem e, sobretudo, deem atenção às necessidades de países menos desenvolvidos.  O setor privado brasileiro participou ativamente das discussões para o documento entregue ao secretariado da ONU para a discussão dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS ) na Rio+20.

Patriota destacou o contato estreito com o setor privado como uma das características da política externa do governo Dilma, o que, segundo ele, fortalece a negociação internacional e a diplomacia brasileira. Apesar das dificuldades nas negociações e da crise financeira internacional, a avaliação de Patriota é de que a Rio+20 já pode ser considerada um marco histórico, não só pelo número de representantes governamentais e delegados presentes, mas, sobretudo, pelo modelo de inclusão, com os diálogos e eventos paralelos da sociedade civil.

A CNI entregou ao governo federal um documento que relata iniciativas de 16 setores, que representam 90% do PIB industrial, para reduzir o impacto de suas atividades no meio ambiente. De acordo com o texto, as iniciativas nas duas últimas décadas resultaram em “fábricas menos poluentes e mais eficientes no consumo de energia, que encontraram soluções melhores para o uso da biodiversidade”.

No evento, que reuniu centenas de empresários, o presidente da CNI ressaltou que o governo do País, e não a indústria brasileira, deve ser responsabilizado pela poluição no Brasil. “Hoje quem polui é a população, a sociedade”, disse, afirmando que é preciso cobrar investimentos públicos em saneamento, mobilidade urbana e infraestrutura.

Questionado se a indústria brasileira é poluidora, ele afirmou que as empresas vêm trabalhando para reduzir os impactos ambientais de suas operações para atender uma legislação rígida que “fecha fábricas” e também ao consumidor, que hoje prefere produtos sustentáveis. “Não é apenas uma questão de responsabilidade social, mas de sobrevivência.”

Transição. A ministra brasileira do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, defendeu que a proposta de criação de um fundo global para financiar a transição para uma economia verde seja analisada com olhos voltados para o médio e longo prazos. “A Rio+20 acontece no curto prazo, mas tem mandato para buscar soluções permanentes e concretas de médio e longo prazos”, disse a ministra, durante o encontro de empresários.

No evento, o economista e professor de Harvard Dani Rodrik comentou que as dificuldades orçamentárias dos países da Europa impedirão que a ideia de criação do fundo avance na conferência. A proposta do G-77, bloco que reúne nações em desenvolvimento mais a China, é de criação de um fundo internacional de US$ 30 bilhões para financiar o desenvolvimento sustentável.

“Acho que é uma ideia muito boa, mas, na prática, se tornou mais remota em razão da crise fiscal dos países avançados”, disse Rodrik.

Crítico assumido de políticas de cooperação internacional, ele lamentou a possível frustração do fundo por acreditar que o mecanismo é interessante no caso do financiamento de tecnologias verdes e modernização tecnológica de antigas fábricas. “Seria um cenário ganha-ganha para países ricos e pobres”, afirmou.

Questionada se os países desenvolvidos estariam irredutíveis em ceder em algumas das negociações em andamento na Rio+20, a ministra negou. “Cedem. Você já participou de alguma discussão internacional? Parece que não”, disse ela.

 

A norueguesa Gro Brundtland, criadora do conceito de desenvolvimento sustentável, alertou que na negociação em Copenhague, há três anos, uma proposta semelhante também não progrediu em virtude da crise iniciada com a quebra do Lehman Brothers. Apesar disso, Gro disse estar otimista. “Creio que vá progredir no Brasil. Talvez não tanto quanto imaginamos, mas conseguiremos algo razoável”, disse ela. Em relação à discussão sobre o cálculo do chamado “PIB Verde”, que contabilizaria os recursos do meio ambiente na produção de riqueza, a ex-premiê da Noruega se mostrou mais cética . Ela lembrou que o tema é debatido desde 1987.

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