Pecuaristas serão ressarcidos por gado morto por onças

Pela primeira vez no Brasil, pecuaristas serão ressarcidos pelas perdas de rebanho causadas por onças. Para tanto, deverão se comprometer a não matar os predadores. A iniciativa é da organização não-governamental Fundo para Conservação da Onça-Pintada e já conta com a adesão de nove proprietários da região do rio Negro, no Pantanal da Nhecolândia, no Mato Grosso do Sul.Os recursos para o reembolso virão da Conservation Internacional do Brasil (CI-Brasil) e será pago mediante comprovação técnica de que a perda do gado foi causada por onça-parda ou onça-pintada. O pacto firmado entre os proprietários e o Fundo estabelece uma moratória de dois anos à caça de onças. Segundo informações dos pecuaristas, a perda na região é estimada em 200 cabeças de gado por ano.O projeto é uma continuidade do trabalho de pesquisa dos biólogos Leandro Silveira e Anah Jácomo, que vem sendo patrocinado há mais de um ano pela CI-Brasil em parceria com o Earthwatch Institute, através do Centro de Pesquisa para Conservação da Biodiversidade, que funciona na Fazenda Rio Negro, propriedade da CI-Brasil no Pantanal mato-grossense.Os proprietários que participarem receberão ainda benefícios para seus funcionários e colaborarão com o estudo, permitindo a instalação de ?armadilhas fotográficas? em suas fazendas. As fotografias dos animais ajudam o trabalho de monitoramento, pois através delas se pode identificar indivíduos e seus hábitos.Os biólogos trabalham há 11 anos com onças e, desde 1994, concentram sua pesquisa no Parque Nacional das Emas, em Goiás, estudando as últimas onças-pintadas dos campos do Cerrado. O parque é o último grande refúgio para onças no planalto central e os pesquisadores têm buscado, no último ano, as conexões naturais entre essa área e o Pantanal, dentro do Programa Corredor Ecológico Cerrado-Pantanal da CI-Brasil.?Mapeando áreas remanescentes de vegetação natural entre Pantanal e Cerrado, e conhecendo minuciosamente as populações de onças que existem entre eles, podemos identificar áreas prioritárias para sua conservação e batalhar para que sejam protegidas?, diz Leandro Silveira,, que está à frente do Fundo para Conservação da Onça-Pintada. ?Se populações das chapadas da região do Parque Nacional das Emas puderem realizar trocas genéticas com as populações de onças do Pantanal, o risco de extinção será reduzido?.Com orçamento de R$ 200 mil para o primeiro ano, o Fundo vai beneficiar os peões e capatazes das fazendas, através de uma parceria com o Projeto UFMS Vai à Escola, da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, que propiciará assistência médico-odontológica e educação ambiental aos panteneiros e suas famílias. O objetivo é que recebam orientação para deixarem de caçar as onças.Animal-problemaOs conflitos entre grandes predadores e pecuaristas são uma constante no Pantanal, onde a utilização de áreas de pastagens naturais para criação de gado não elimina os refúgios naturais de onças pardas e pintadas. Perto demais do gado, as onças acabam descobrindo que bois também podem ser caçados e a predação é quase inevitável. Frente aos prejuízos causados, as onças passam a ser abatidas sem nenhum critério científico de controle.Para Silveira, a conservação de predadores como a onça-pintada fora de áreas protegidas ?é um desafio para a biologia da conservação e está claro que sem o apoio das pessoas que convivem com essas espécies, ela se torna praticamente impossível?. Segundo Reinaldo Lourival, diretor da CI-Pantanal, porém, não são todas as onças que predam o gado, já que bois não fazem parte do cardápio natural da espécie. ?Com o estudo, poderemos ter informações precisas sobre o número real de gado morto por onças e identificar os indivíduos da espécie que passaram a ter esse comportamento. Com isso, poderemos tomar decisões que envolvam mudanças no manejo das onças e do gado ou até a eliminação de uma onça-problema?, diz.Lourival lembra, ainda, que esse sistema de ressarcimento da população por prejuízos causados por animais selvagens é utilizado em outros locais do mundo, como com os elefantes na África. ?Lá, já se percebeu que os recursos turísticos trazidos pelos elefantes superam os prejuízos que causam à agricultura. Esperamos que aconteça a mesma coisa com as onças no Pantanal.?

Agencia Estado,

14 de outubro de 2002 | 14h51

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