Lucas Warren/Unesp
Lucas Warren/Unesp

Pegadas descobertas em rochas podem ser evidência mais antiga de dinossauros em SP

Vestígios encontrados na região entre Rio Claro e Piracicaba passam a ser os mais antigos do Estado

José Maria Tomazela, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2022 | 15h00

SOROCABA - Dinossauros medindo seis metros de comprimento e pesando até dez toneladas faziam tremer o chão quando davam suas passadas pelo terreno arenoso e úmido que 150 milhões de anos depois se transformaria na atual região entre Rio Claro Piracicaba, no interior de São Paulo. O impacto dos pisões deformou a estrutura das camadas de sedimentos que formavam o solo e deixou marcas que a deposição de novos sedimentos e o tempo preservaram.

As pegadas ancestrais, descobertas pelo geólogo Lucas Verissimo Warren, professor do Instituto de Geociências Exatas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), câmpus de Rio Claro, e estudadas por ele e uma equipe de paleontólogos, podem ser a evidência mais antiga da presença de dinossauros em território paulista. O estudo inédito foi publicado em maio na revista científica Journal of South American Earth Sciences.

Na época, essa região do interior de São Paulo era um deserto cheio de dunas, com lagoas formadas pelas chuvas - cenário semelhante ao atual dos Lençóis Maranhenses, no norte do País. Os estudos indicam que grupos de dinossauros se moviam nessa paisagem, deixando as marcas de seus passos na argila que se formava pela deposição de sedimentos entre as dunas.

Conforme o pesquisador, essas pegadas chegaram até nós na forma de um fenômeno conhecido como dinoturbação, ou seja, os distúrbios nas camadas sedimentares causados pelo pisoteamento do solo por dinossauros. "Não foram uma ou duas, achamos cerca de 50 pegadas de dimensões variáveis, o que pode indicar que manadas de dinossauros adultos e filhotes vagavam por essa região, deixando suas pegadas como testemunhos", disse Warren.

Há dez anos, ele conduzia estudantes de Geologia da Unesp para registrar formações rochosas no município de Ipeúna, na área em que se encontra a Formação Pirambóia, nome dado a um grande conjunto de blocos formados pela deposição de sedimentos que, nessa região, chega a ter centenas de metros de espessura. Foi quando Warren observou que as rochas expostas em um pequeno cânion tinham deformações características de impactos no sedimento.

"Era como se algo tivesse amassado o sedimento ali, que depois foi preenchido por areia trazida pelo vento. Quando você pisa em uma cama arrumada, deixa uma marca na colcha e no colchão que está embaixo. Se você estica a colcha, elimina o amassado superficial, mas fica a marca no colchão. Essa era a feição característica dos achados naquela área", explicou.

Ao longo dos anos seguintes, ele conseguiu encontrar outros locais onde esses achatamentos estavam registrados na rocha e percebeu outras características interessantes, como a de que, em várias rochas, os amassados na camada ocorriam a distâncias regulares. A extensão destes intervalos variava de dez centímetros até dois ou três metros.

Além disso, os buracos preenchidos não eram simétricos, apresentando variações nas suas extremidades. No total, o geólogo e seus colaboradores mapearam cerca de cinquenta desses amassados em afloramentos rochosos dispersos numa área de 30 quilômetros quadrados.

Convencido de que as marcas podiam ser pegadas de animais pré-históricos, e não sendo especialista nessa área, Warren convidou outros estudiosos, como o estudante de doutorado Bernardo Peixoto, do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da Universidade Federal de São Carlos, para observar alguns dos sítios que ele havia mapeado.

Peixoto pesquisa pegadas e outras marcas deixadas por bichos ancestrais em sedimentos que se tornaram rochas depois de milhões de anos. "Ele olhou e disse: 'isso aí é pegada de dinossauros'", contou. O nome técnico para essas estruturas é undertracks, e quando há grandes chances de terem sido produzidas por dinossauros, são chamadas dinoturbações.

Ajudados pela mestranda Beatriz Christofoletti, então orientanda de iniciação científica de Warren, eles compararam seus achados com pegadas de dinossauros encontradas também em rochas da chamada Formação Guará, localizadas no Rio Grande do Sul, além de dados coletados em estudos feitos na Namíbia.

Os pesquisadores concluíram que as dimensões das pegadas, algumas com meio metro de profundidade, indicavam tratar-se de animais de grande porte. "Não eram dinos pequenos, talvez tivessem entre quatro e seis metros de comprimento, pesando toneladas", disse Warren. A assimetria nos buracos se deveria ao movimento da pata dos animais, quando se apoiavam no solo para dar a passada.

Já as diferenças no tamanho das pegadas poderiam indicar a presença de indivíduos adultos e outros menores, talvez filhotes, andando lado a lado. Como os animais se deslocavam em grandes grupos, uma camada se sobrepunha à outra.

"Isso pode ser visto hoje em dia em diversos locais onde ocorrem animais de grande porte", explica Warren. Ele cita o exemplo de observações feitas no Rio Okavango, em Botsuana, na África, que possui camadas de argila úmida alternadas com camadas de areia úmida. "A passagem de grupos de hipopótamos e rinocerontes gera ondas de choque que se propagam para baixo do leito do rio e movimentam o material. A propagação dessas ondas forma estruturas semelhantes às que nós observamos aqui", disse.

Com o uso de métodos de datação, levando em conta o porte dos animais, os pesquisadores puderam estimar que as pegadas foram feitas durante o chamado período Jurássico Médio, que ocorreu entre 174 milhões e 140 milhões de anos atrás, o que também condiz com a idade geológica da Formação Pirambóia, segundo Beatriz. Essa datação torna a descoberta bastante relevante para a paleontologia brasileira, sobretudo para o estudo dos dinossauros no Brasil.

"A maior parte dos fósseis de dinossauros encontrados no País pertence ao Triássico (entre 252 milhões e 201 milhões de anos atrás), que foi quando eles surgiram e começaram a se diversificar, ou ao Cretáceo (entre 145 milhões e 66 milhões), que é um período mais recente. E estas dinoturbações são dezenas de milhões de anos anteriores aos achados mais antigos que até então se conheciam no Estado de São Paulo, que pertencem ao Cretáceo. Estes passam a ser os vestígios de dinossauro mais antigos do Estado", disse a pesquisadora.

Ela lembra que as pegadas resgatadas de uma pedreira de Araraquara, e que chegaram a compor o pavimento de calçadas da cidade, são de animais menores e mais recentes, do período Cretáceo. Naquele caso, as rochas em que as marcas ficaram impressas são da Formação Botucatu, sabidamente mais recente que a Piramboia.

Segundo ela, como a Formação Piramboia, em São Paulo, e a Formação Guará, no Rio Grande do Sul, seriam uma mesma camada de rocha, é possível que elas apresentassem semelhanças tanto no ambiente como na fauna de dinossauros. No caso do Rio Grande do Sul, já há estudos reconstruindo a aparência que tinham os animais que viveram por lá à época.

"Temos pouca coisa do período jurássico no Brasil e essas foram as primeiras pegadas do período encontradas em São Paulo", disse. A pesquisadora torce para que seja encontrada uma pegada em planta, ou seja, exposta, para que possa ser vista de cima. "Todas as pegadas que vimos são de corte lateral. De cima, talvez seja possível identificar a espécie. Sabemos que é animal pesado e de pata grande e, pela datação que já temos, do período jurássico", completou.

Os pesquisadores acreditam que há grande potencial para se encontrar os restos fossilizados de ossos desses grandes animais que viveram na região, a exemplo dos fósseis de titanossauro achados nas regiões de Marília Presidente Prudente, na porção oeste do Estado. Para a continuação das pesquisas, o sítio paleontológico deve ser preservado.

"A maioria dos achados está em locais que, com certeza, não sofrerão intervenções em futuro próximo. Sabemos que há estudos para transformar essa região da Cuesta em um geoparque. Isso sem dúvida garantiria a preservação dos achados", disse Warren.

Um projeto para a criação do Geoparque Corumbataí já foi desenvolvido pela Unesp de Rio Claro, em parceria com a Faculdade de Ciências Aplicadas da Unicamp (FCA) de Limeira. A proposta abrange áreas de interesse geológico dos municípios de Rio Claro, Analândia, Charqueada, Corumbataí, Ipeúna, Itirapina, Piracicaba e Santa Gertrudes.

O projeto já foi reconhecido pelo Serviço Geológico do Brasil (CPRM), mas sua criação ainda tramita na Unesco, agência especializada para educação, ciência e cultura da Organização das Nações Unidas (ONU).

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