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Pensamento científico

O pensamento científico ainda não faz parte de nosso repertório mental

Fernando Reinach, O Estado de S.Paulo

19 Maio 2018 | 03h00

Em 2015 e 2016, o Brasil pagou caro por não cultivar o pensamento científico. O vírus da zika chegou ao País e imediatamente os casos de microcefalia explodiram. Em 2014 haviam sido reportados 147 casos de microcefalia. Entre novembro de 2015 e outubro de 2016, o total subiu para 9.814 casos. 

Foi o pânico. Grávidas apavoradas, casais evitando engravidar, catastrofistas prevendo um país de microcéfalos. Tão óbvio quanto o Sol parece rodar em volta da Terra, todos afirmavam que a zika e a microcefalia andavam juntas, eram causa e efeito de nossa desgraça. Alguns, eu inclusive, na coluna Microcefalia Que Sempre Existiu, publicada em 6 de fevereiro de 2016, puseram em dúvida esses números. Foi em vão, o pânico se alastrou. A novidade é que agora sabemos que os números estavam errados, a microcefalia no Brasil não aumentou com a chegada da zika.

Na época, me perguntei se o aumento dos casos de microcefalia de fato existia. Era preciso comprovar a veracidade do número de 147. Esse era o número de casos notificados, ou seja, os casos em que os médicos haviam avisado ao governo sobre o nascimento de um microcéfalo durante o ano de 2014. 

Notificações dessa natureza normalmente subestimam a realidade, pois nem toda a notícia de um caso acaba no banco de dados do ministério. Mas, então, qual deveria ser o verdadeiro número de microcéfalos que nasceram no Brasil em 2014? 

Difícil saber, mas era razoável supor que a frequência de microcéfalos deveria ser parecida em todas as populações humanas. Mas onde esse número havia sido medido cuidadosamente (sem ser por notificações)? Foi fácil identificar um estudo científico feito nos Estados Unidos. Esse estudo afirmava que 0,6% das crianças nascidas nos EUA apresentam uma forma severa de microcefalia. Corrigindo para o número de nascimentos no Brasil foi fácil calcular que no Brasil, se a taxa fosse igual (0,6%), deveriam ter nascido 19.250 microcéfalos e não 147. 

Pouco provável que o número 147 estivesse correto. Uma hipótese plausível é que, até a chegada da zika, poucos dos casos de microcefalia estavam sendo reportados, mas que, no inicio de 2015, com a suspeita de uma relação entre o vírus e a microcefalia, os médicos estavam mais atentos e os casos reportados tinham aumentado. Se isso fosse verdade, então os 9.814 casos ainda seriam um número menor do que deveria ocorrer normalmente na população brasileira e não o número de casos provocados pela chegada do vírus. Ou seja, talvez a zika não fosse a causa do aumento da microcefalia. E, se isso fosse verdade, o pânico era infundado. Infelizmente esse argumento nunca foi aceito, e o aumento de 147 para 9.814 se tornou a narrativa oficial.

O novo estudo que agora foi publicado obteve os dados de 6.174 crianças nascidas em Ribeirão Preto (SP), e 4.220 crianças nascidas em São Luís. Todos os nascimentos ocorreram em 2010, cinco anos antes da chegada do zika ao Brasil e cada criança havia sido examinada cuidadosamente. 

O resultado mostrou que em Ribeirão Preto 0,8% das crianças já nasciam com microcefalia e em São Luis 0,7% tinham o problema. Isso em 2010. Ou seja, no Brasil, antes de chegar a zika, já nascia um número um pouco maior de microcéfalos que nos Estados Unidos. 

A conclusão é de que a zika não aumentou significativamente o número de microcéfalos no Brasil. Isso não significa que a zika não possa causar microcefalia em algumas crianças ou afetar o cérebro das crianças durante a gestação, só significa que no Brasil a zika não aumentou o número de nascimentos de crianças com microcefalia. O interessante é que já se sabia que nos países por onde tinha passado a zika não havia provocado tanta microcefalia e, nos outros países por onde se espalhou após chegar ao Brasil tampouco aumentou os casos de microcefalia.

A dificuldade da sociedade brasileira de questionar os números das autoridades de saúde demonstra nossa incapacidade de analisar com um olhar científico a realidade que nos cerca. Ou seja, o pensamento científico ainda não faz parte de nosso repertório mental. E sem a perspectiva do pensamento científico só nos restou entrar em pânico.

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