Pererecas brasileiras injetam veneno com espinhos da cabeça

Pererecas brasileiras injetam veneno com espinhos da cabeça

Estudo feito por cientistas brasileiros e americanos revela que duas espécies peçonhentas da Caatinga e da Mata Atlântica usam suas cabeças parecidas com cactos para atacar predadores

Fábio de Castro, O Estado de S. Paulo

06 Agosto 2015 | 16h39

Vários tipos de anfíbios secretam substâncias tóxicas para se defender, mas duas espécies de pererecas encontradas no Brasil se valem de um mecanismo único para utilizar o veneno: elas possuem, na cabeça, espinhos ósseos capazes de injetar as toxinas diretamente em outros animais.

A descoberta foi feita por cientistas do Instituto Butantan e da Universidade de Utah, nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados hoje na revista científica Current Biology. Segundo os autores, os animais podem ser os primeiros anfíbios peçonhentos já registrados.

De acordo com um dos autores, Carlos Jared, do Instituto Butantan, para a ciência existe uma diferença entre animais peçonhentos e animais venenosos. Os animais peçonhentos, como as cobras, utilizam um mecanismo de defesa ativa. Os venenosos, como os sapos, usam a defesa passiva. 

"As cobras são peçonhentas porque têm um mecanismo de defesa ativa: as glândulas que armazenam a peçonha se comunicam com os dentes e, quando elas atacam, a musculatura comprime as glândulas, expelindo a peçonha por pressão. Elas literalmente dão uma injeção na vítima", disse Jared ao Estado.

Por outro lado, segundo Jared, os anfíbios em geral são considerados venenosos, porque as glândulas com toxinas não têm esse mecanismo de "injeção" e a defesa é passiva. O predador entra em contato com ele apenas quando morde o animal. De acordo com o cientista, enquanto os animais peçonhentos usam as toxinas para caçar, os animais venenosos o usam para se proteger, como fazem as plantas venenosas.

"O que há de especial nessas duas pererecas é que elas têm um comportamento que combina os dois mecanismos. Quando estudamos as cabeça delas, vemos que os seus crânios se parecem com um cacto. Elas praticamente não têm pele sobre a cabeça. Na realidade, trata-se de uma pele ossificada que forma pequenos espinhos. Esses espinhos permitem que ela injete o veneno", afirmou Jared - que estuda animais da caatinga desde 1987. 

As duas pererecas analisadas no estudo são a Corythomantis greeningi, encontrada na Caatinga e a Aparasphenodon brunoi, encontrada na Mata Atlântica. Incluídas na categoria de "pererecas-de-capacete",  elas são conhecidas há décadas, mas, até agora, os cientistas ainda sabiam muito pouco sobre sua biologia. 

Os cientistas descobriram que, além dos espinhos na cabeça, as duas pererecas têm a capacidade de movimentar a cabeça - o que pode aumentar sua eficiência como "arma". "É um caso interessante. Elas conseguem fazer 'sim' e 'não' com a cabeça. Os anfíbios não têm pescoço e, em geral, não fazem isso", explicou.

A Corythomantis greeningi chamou a atenção do pesquisador de uma maneira bastante dolorosa. Depois de manipular várias pererecas durante um trabalho de campo na caatinga do Rio Grande do Norte, Jared sentiu dores intensas no braço por mais de cinco horas.

"É uma dor impressionante. Achei que tinha contraído alguma infecção e que teria uma septicemia, tal a intensidade da dor. Só depois dos estudos pudemos entender a causa: o veneno da perereca tem um componente que causa uma dor pura, sem infecção", afirmou Jared.

Segundo ele, o veneno é usado de um modo "pedagógico" pela perereca. "Imagine o que um animal como esse produz na mucosa do predador que tenta mordê-lo. Se o predador sobreviver, certamente nunca mais se atreverá a chegar perto da perereca", disse.

Para sorte do pesquisador, ele foi ferido pelos espinhos da espécie menos venenosa das duas.  De acordo com outro dos autores do estudo, Edmund Brodie, da Universidade de Utah, o veneno da Aparasphenodon brunoi possui uma toxina poderosíssima, composta de alcaloides. Segundo os cálculos de Brodie, se um grama dessa toxina for extraído, essa pequena quantidade seria suficiente para matar 300 mil camundongos, ou 80 humanos.

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