Pesca predatória diminui estoque de peixes no Lago de Canaçari

Menor município do Amazonas, Silves tem 7.300 habitantes, metade deles moradores na cidade, uma ilha no Lago de Canaçari. Sua economia é baseada na pesca e agricultura de subsistência, praticadas pelas 26 comunidades ribeirinhas espalhadas pelos igarapés da região. Cercado pela floresta, o Lago é um paraíso para peixes e outras espécies aquáticas, como aves e botos, principalmente pela diversidade de árvores, na maior parte frutíferas, que permanecem parcialmente submersas durante todo o período da cheia, o inverno amazônico. Nos meses de verão, as águas descem, formando inúmeras praias, deixando a paisagem ainda mais bonita.Esse paraíso aparentemente intocado, porém, está ameaçado. ?Tínhamos fartura de peixe, mas a partir da década de 70, os barcos pesqueiros, vindos de Itacoatiara, de Manaus e do Pará, invadiram a região. O estoque de pesca praticamente acabou, com a aquiescência de algumas comunidades, que ajudavam a fazer os lances - colocavam redes de malha fina em local que só inunda na cheia, onde é mais fácil pegar os peixes?, conta Vicente de Almeida Neves, da Associação de Silves para Preservação Ambiental e Cultural (Aspac). Local de alimentação para os peixes, o Lago de Canaçari costumava ser repovoado anualmente, de março a junho, quando os cardumes passavam no rio Urubu, o principal da região, e entravam nos igarapés durante o percurso. Segundo Neves, ?os grandes armadores passaram a pegar os cardumes antes que entrassem nos igarapés, um golpe fatal no estoque pesqueiro no Canaçari?. Maura Campanili/AEEntrada do lago Pira Mirim, uma das áreas de reserva, em Silves, onde a pesca é proibidaCom a pesca difícil, surgiu um outro problema, que é a pressão sobre a caça. Pássaros (como garça, mergulhão e maguari) e mamíferos (como paca, tatu, cotia, capivara) também começaram a sumir, chamando a atenção da população, pela primeira vez, para problemas ambientais. ?As primeiras manifestações em relação à escassez dos recursos naturais foram nos movimentos de base, da igreja católica, quando começamos a criar comitês de pesca, para discutir os problemas e propor soluções. No entanto, no início dos anos 90, a igreja começou a se afastar das lutas sociais e o trabalho de conservação ficou na mão de poucos. Foi aí que sentimos a necessidade de uma instituição que pudesse dar suporte ao trabalho e criamos a Aspac, em 1993?, conta Neves.A atuação da Aspac encontrou (e ainda encontra) resistência, principalmente porque passou a querer controlar a pesca no Lago de Canaçari. ?Sabíamos que a proibição da entrada de barcos de fora no Lago era inconstitucional, mas foi a única alternativa. Era instinto de sobrevivência. Nosso movimento queria a regulamentação da pesca em Silves e conseguimos aprovar, com a ajuda do prefeito, uma lei de zoneamento dos lagos, também em 1993?, diz. A partir daí, foram criados santuários para procriação e áreas de manutenção no entorno, onde a pesca é proibida, além de áreas livres, onde a atividade é liberada. Com a ajuda do WWF, a Aspac conseguiu ainda recursos do governo da Áustria para fazer o monitoramento dos lagos e, embora os grandes peixes ainda sejam escassos, o estoque começa a se recuperar, pelo menos nas áreas de preservação.

Agencia Estado,

26 de junho de 2003 | 09h40

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.