Pesca predatória pode acabar com espécie no Paraná

A rápida desvalorização da moeda argentina pode agravar a crise no setor pesqueiro e desencadear um grande problema ecológico no rio Paraná, na região de Santa Fé, Argentina. O motivo é a pesca predatória do sábalo, espécie fundamental na cadeia alimentar da bacia hidrográfica e considerada uma iguaria em todo o mundo. A pressão sobre o sábalo (Prochilodus platensis), conhecido no Brasil como curimbatá, aumentou muito nos últimos três anos, devido à maior demanda do mercado internacional, sobretudo de Brasil, Bolívia, Colômbia, Nigéria e África do Sul.Frigoríficos"Com a variação do câmbio em relação ao dólar, as exportações - e a predação - devem aumentar, colocando em risco a pesca no rio Paraná", diz o Jorge Cappato, diretor da Fundação Proteger, organização não-governamental argentina.Segundo Cappato, a pressão dos grandes frigoríficos é a maior causa da drástica diminuição dos recursos pesqueiros, agravada pela deficiência dos sistemas de controle e fiscalização.Além disso, a crise financeira tem levado mais gente para a atividade, onde pescadores empobrecidos, que já perderam suas embarcações e meios de pesca, recebem cerca de US$ 0,10 por um sábalo, que pode pesar de um a dois quilos. Esse mesmo peixe é vendido a US$ 0,50 o quilo para o Brasil e outros países sul-americanos e pod e chegar a US$ 6,00 o quilo na Europa. Redes ilegaisSomente na costa de Santa Fé, calcula-se uma extração entre 20 e 30 mil sábalos por dia, boa parte pescada com redes mais finas do que as permitidas.A estimativa é que o Brasil importe 30 mil toneladas por ano de sábalos argentinos, sem controle suficie nte para impedir o transporte de pescados fora de medida.Corrupção"Há corrupção e falta vontade política para resolver o problema. O mais grave é que milhares de famílias pobres que hoje dependem do pescado, ficarão sem comida com o colapso da pesca no Paraná, o que é uma questão de tempo", opina o ambientalista.Base da cadeia alimentarO sábalo, que se alimenta de lama, é a base da cadeia alimentar das 20 principais espécies de valor comercial que existem no rio Paraná, como o dourado e o suburi, que se alimentam de suas larvas e ovos.Além disso, é fundamental para a reciclagem da matéria orgânica que, incorporada à lama, se torna inacessível às outras espécies. "Esta pirâmide construída sobre uma espécie é um dos poucos fenômenos desse tipo conhecidos nos rios de todo o mundo", diz o diretor da Proteger, ONG que lidera a defesa da pesca no rio Paraná.RepresasOutro impacto importante na pesca da região são as grande represas - Itaipu (a apenas 14 quilômetros da fronteira entre Brasil e Argentina) e Yacyretá (represa binacional entre Argentina e Paraguai)."As principais espécies de peixes do Paraná são migratórias, e as represas cortaram essas rotas. Os elevadores de transferência de peixes em Yacyretá são tão ineficientes, que os pesquisadores descobriram que menos de 2% dos peixes conseguem ser transferidos rio acima pelos elevadores mecânicos", disse Cappato.PerdasPesquisadores estimam que a sobrepesca está levando o dobro ou o triplo do que o sistema pode suportar para ser sustentável."A pesca bem conduzida poderia render benefícios para muita gente a longo prazo e não ser um negócio de curto prazo para poucos. Além do impacto nas comunidades ribeirinhas, estamos perdendo ótimas oportunidades de desenvolvimento turístico, ligado à pesca esportiva, no segundo rio mais importante da América do Sul", avisa o ambientalista.

Agencia Estado,

16 de março de 2002 | 11h20

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