Pescadores são treinados para atuar em derramamentos de óleo

O envolvimento da comunidade é um recurso fundamental para dar agilidade e eficiência ao atendimento de acidentes provocados por vazamento de óleo, sobretudo em ambientes aquáticos, como no mar e em rios. A experiência da baía de Vancouver, na costa oeste do Canadá, foi um dos casos apresentados hoje, durante o seminário Petrobrás de Combate a Emergências em Nível Regional ? região Sul, que acontece em Florianópolis.Um das regiões mais atingidas pelo derramamento do navio Exxon Valdez, na década de 80 no Alasca, Vancouver implantou um sistema de gerenciamento ambiental bancado por uma cooperativa de empresas petrolíferas, a Burrad Clean Organization (BCO), que centraliza equipamentos e pessoal voltado para prevenção e atendimento de emergências. Além disso, Eugenio da Motta Singer, da ERM Brasil, empresa de consultoria na área ambiental, diz que uma lei canadense criou uma taxa para o transporte de petróleo, que também é usada para custear a entidade.A BCO passou a capacitar os pescadores para se tornarem agentes em caso de acidentes. A adesão ao programa, que inclui treinamento e equipamento para a embarcação, é voluntária, assim como o envolvimento em uma determinação missão. ?Os voluntários podem ou não atender ao chamado quando convocados. Sua obrigação começa no momento em que aceita a missão?, afirma Singer.Entre as funções desses representantes das comunidades estão lançamento de barreiras, transporte de pessoal e equipamentos e monitoramento da mancha de óleo. Ao participarem de uma emergência, são identificados por coletes e remunerados pelo período em que trabalham. Experiência brasileiraSegundo Ricardo Berardinelli, coordenador de Segurança, Meio Ambiente e Saúde dos Terminais Aquaviários da Transpetro, na região Sudeste, o uso de embarcações de terceiros durante um derramamento no terminal marítimo da baía da Ilha Grande, em Angra dos Reis, Rio de Janeiro, levou a empresa a fazer um cadastramento de cerca de 300 pescadores, que receberam treinamento para atuar em emergências.?Esses pescadores são remunerados para participar dos treinamentos e também o serão em caso de precisaram atuar em um caso real, o que, até o momento, felizmente, não aconteceu?, diz Benardinelli. Programas semelhantes estão sendo implantados também no terminal de São Sebastião, São Paulo, onde foram cadastrados 1.300 pescadores, e na região sul, onde 23 pessoas já foram treinadas.Eugenio Singer, que realiza consultoria para a Petrobrás, acredita que no Brasil, como existe falta de recursos para atendimento acidentes, esse tipo de brigada poderia ser treinada para atuar não apenas em casos de derramamento de óleo, mas de qualquer substância tóxica, desde que tenha treinamento específico.Outra tendência do sistema implantado no Canadá que começa a ser aplicada no Brasil é a cooperação de empresas no atendimento de emergências. ?Está para entrar em vigor uma legislação brasileira que obriga todas as indústrias que trabalhem com petróleo a fazer planos de emergência individual. Por conta disso, várias empresas já estão buscando formar cooperativas. A Cetesb, em São Paulo, está analisando casos nesse direção?, diz.A estrutura implantada pela Petrobrás, com seus nove Centros de Defesa Ambiental, começa a prestar esse tipo de serviço a outras empresas. Conforme Singer, isso já acontece no CDA de São Luís, com a Companhia Vale do Rio Doce, e no terminal Madre de Deus, na Bahia, com as empresas Queiroz Galvão e El Paso. A integração com organizações não-governamentais (ongs) também é um caminho a ser buscado, no atendimento a emergências. A entidade Sea Shepherd, com sede no Rio Grande do Sul, por exemplo, realiza treinamento de voluntários, em toda a costa brasileira, para salvar animais vítimas de derramamento de óleo. O Grupo Oceanográfico de Preservação Ecológica (Gope), do balneário Camboriú, em Santa Catarina, trabalha com monitoramento, auxílio e recuperação de animais, a maior parte aves e mamíferos marinhos. Há um ano, firmou um convênio com a prefeitura e a Petrobras para a construção de um Centro de Recuperação de Animais, que já atendeu 330 espécimes.Um grupo de empresas, que inclui a ERM, a Oceansat e a editora Signus, está criando uma ong voltada para pesquisa e zoneamento ambiental costeiro. Chamada Instituto Pharos, a entidade será oficializa no dia 10 de junho e deverá começar a operar em agosto. ?Temos um projeto piloto em Ubatuba, São Paulo, de capacitação de estudantes, que será o primeiro a ser desenvolvido?, diz Singer.

Agencia Estado,

21 de maio de 2003 | 16h46

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