Pesquisa identifica seqüência para migração de tumores

Imagine que você seja uma célula com algo urgente para fazer, nadando pelo pesadelo de qualquer encanador que é o sistema circulatório humano. Como você fica sabendo quando chegou onde queria ir? Por que não existem placas indicando: ?Rim?, ?Preste atenção, coração à frente?, ou ?Psiu, neurônios pensando??Talvez haja. Os médicos sabem, há anos, que quando as células cancerígenas se espalham, elas se instalam em locais específicos do corpo. Células de câncer da próstrata, por exemplo, migram para os ossos.Pesquisadores do M.D. Anderson Cancer Center, em Houston, acreditam ter encontrado os primeiros endereços do ?código de endereçamento postal? (CEP) do sistema vascular humano. Conhecer esses endereços pode tornar mais eficiente a absorção de medicamentos e a terapia celular. Os cientistas produziram bilhões de vírus que carregavam em sua superfície 47 mil peptídeos ? cordões curtos de unidades de aminoácidos, dos quais são feitas as proteínas do corpo ? e os injetaram em um paciente de 48 anos, com câncer terminal. Quinze minutos depois, após ele ter morrido, os pesquisadores tiraram amostras de seus tecidos e examinaram a distribuição dos peptídeos. Renata Pasquilini, Wadih Arap e uma grande equipe de colegas afirmam, no atual número da revista Nature Medicine, que conseguiram identificar cinco dos ?códigos postais? dos vasos sanguíneos. Eles descobriram que 17 dos peptídeos foram para os vasos sanguíneos da medula óssea. Todos incluíam as sequências GGG ou GFS, letras que indicam tipos de aminoácidos, dos quais existem 20. Decifraram os códigos postais da gordura como EGG e LSP, da próstata como AGG, do músculo como LVS e da pele como GRR, GGH ou GTV. As células que revestem as paredes dos vasos sanguíneos provavelmente têm receptores que atraem peptídeos com aquela sequência específica.Os pesquisadores esperam compilar uma biblioteca com todos os CEPs dos órgãos humanos. Esse conhecimento é de considerável interesse para farmacêuticos e oncologistas, que gostariam de direcionar os medicamentos aos tecidos onde são necessários. Quando as células que viajam no sistema circulatório encontram seu CEP, provavelmente conseguem se espremer através da parede do vaso sanguíneo, entrando no tecido adjacente. Não se sabe se os medicamentos conseguiriam fazer o mesmo sem ajuda extra.O motivo para a existência do CEP é desconhecido. Estima-se que tipos diferentes de células do sistema imunológico funcionem melhor em certos tecidos, e que cada um precise ser direcionado ao seu destino, disse Bruce Zetter, biólogo da Harvard Medical School.A idéia do código postal existe há muitos anos, mas não pôde ser explorada até a invenção de uma técnica conhecida como phage display. Phage, nome do vírus que se alimenta de bactérias, tem uma película de proteína, que os biólogos aprenderam a substituir por proteínas projetadas por eles. Pasqualini gerou uma biblioteca de phage display para testar a idéia em camundongos. Mas ficou logo claro que os camundongos, apesar de semelhantes aos seres humanos no nível genético, frequentemente usam o mesmo código, mas em órgãos diferentes. A biblioteca de phage foi testada em um único paciente, mas os pesquisadores acreditam, baseados em estudos de outros cientistas, que o sistema de CEP pode variar um pouco entre grupos étnicos e até mesmo entre indivíduos.Vasos sanguíneos recém-formados parecem carregar o mesmo código, independentemente do tecido do organismo no qual foram feitos, afirma Arap. A descoberta pode ser importante para o tratamento do câncer, porque tumores sólidos precisam induzir a formação de novos vasos sanguíneos à sua volta quando ultrapassam certa dimensão.Segundo Zetter, a idéia do sistema postal é comumente aceita e outros laboratórios começam a confirmar a descoberta de Pasqualini. O sistema de CEP será útil, diz ele, se nanotecnólogos conseguirem projetar nanodispositivos para atuar em tecidos específicos.

Agencia Estado,

13 de fevereiro de 2002 | 21h17

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