Pesquisa revela presença do HIV resistente no Brasil

Resultados preliminares de uma pesquisa realizada pelo Ministério da Saúde em nove Estados revelam, pela primeira vez no Brasil, que existe resistência do vírus da aids em portadores que nunca receberam tratamento e mostram que, de 154 amostras de sangue analisadas, seis tinham mutações do HIV contra pelo menos uma das drogas que compõem o coquetel de remédios.O estudo confirma uma tese defendida por pesquisadores brasileiros há anos, de que muitas pessoas podem estar contraindo um vírus já resistente ao coquetel porque têm contato com doentes em tratamento. Mas indica que o índice de recém-infectados resistentes no Brasil (3,8%) ainda é muito menor do que o registrado em países desenvolvidos, com taxas entre 10% e 25% do total. Há, no entanto, diferenças regionais. Enquanto nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste não existem casos desse tipo, a taxa de HIV resistente em Santos (cidade do litoral paulista e uma das primeiras a começar a tratar seus doentes) chega a 20%. "De certo modo, o resultado da pesquisa é positivo porque mostra que, de forma geral, o Brasil ainda não tem os problemas do Primeiro Mundo, mas a má notícia é que, para esses pacientes, pode já não haver tratamento eficaz", declara o pesquisador Marcelo Soares, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que realizou a pesquisa junto com a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) a pedido do Ministério da Saúde.A análise das amostras de sangue do estudo indica ainda que os soropositivos com vírus resistente vivem nas regiões Sul e Sudeste do País, e que a resistência é maior em relação aos remédios que já têm mais tempo de uso no Brasil - classe de medicamentos como o AZT, 3TC, ddC, ddI etc. Dos seis soropositivos com HIV resistente, cinco apresentavam mutações para driblar esse tipo de drogas. Apenas um tinha resistência a inibidores de protease (a terceira e mais recente classe a entrar no mercado, que age impedindo a multiplicação do HIV).Subtipos Outro dado interessante revelado pela pesquisa do ministério mostra uma mudança no subtipo do vírus HIV que circula no País. Até recentemente, os pequisadores achavam que a grande maioria dos contaminados com aids no Brasil tinham o subtipo B do vírus - o mesmo encontrado na Europa e nos Estados Unidos. Mas descobriram, com a pesquisa, que está crescendo no País o número de pessoas que têm o subtipo C, que é comum na África, e pode ser uma das formas do vírus a ser transmitido com mais facilidade."Uma das hipóteses estudadas é que esse vírus C tenha uma vantagem biológica em relação a outros vírus (no mundo, existem HIVs de tipos que vão de A a J). E um dos indícios disso é que, até alguns anos atrás, o subtipo predominante na África era o A, mas hoje o C ganhou a liderança, o que pode indicar que, de alguma forma, ele leva vantagem na hora da trasmissão", analisa Ricardo Diaz, chefe do laboratório de retrovirologia da Unifesp.Os casos do subtipo C no Brasil também estão concentrados no Sul e Sudeste. Em Porto Alegre, por exemplo, 45% das amostras eram desse subtipo e outras 14% eram formas do vírus que misturavam o C e outro subtipo. Além do Rio Grande do Sul, foram encontrados vírus desse tipo no Paraná e no Rio de Janeiro. "É importante saber quais são os subtipos existentes no País para desenvolver pesquisas de remédios ou de uma vacina, por exemplo. Por isso, temos que saber que subtipo está crescendo mais para poder estudá-lo", afirma o virologista Ricardo Diaz.

Agencia Estado,

18 de janeiro de 2002 | 19h02

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