Michel Dalder/Reuters
Michel Dalder/Reuters

Chinês diz ter criado os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo

Experimento teria sido feito em gêmeas para torná-las resistentes ao vírus HIV; anúncio gerou uma série de debates sobre ética profissional e será investigado por autoridades chineses

EFE, AFP e Reuters

26 Novembro 2018 | 13h37
Atualizado 27 Novembro 2018 | 18h13

O pesquisador chinês He Jiankui divulgou nesta segunda-feira, 26, ter supostamente alterado o DNA de duas meninas gêmeas. O anúncio gerou uma série de críticas e debates sobre ética profissional na comunidade científica. Após a repercussão internacional, autoridades médicas da China anunciaram a investigação do caso.

Caso o experimento seja confirmado, as irmãs Lulu e Nana serão os primeiros bebês geneticamente modificados do mundo. Segundo o cientista, que anunciou o suposto experimento pelo YouTube, as meninas nasceram em novembro. "A sociedade vai decidir o próximo passo, em termos de aceitar ou de proibir essa ciência", declarou.

He é pesquisador e professor na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, localizada na cidade de Shenzhen. Segundo ele, a modificação foi feita no gene CCR5 para impedir que o vírus do HIV penetre nas células. 

Em resposta, a universidade afirmou que o cientista cometeu uma “série violação às éticas acadêmicas” e que está suspenso até 2021. Já a Comissão Nacional de Saúde da China disse estar “altamente preocupada” e que requisitou uma investigação “imediata e clara” sobre o que ocorreu. “Nós temos que ser responsáveis pela saúde das pessoas e vamos agir de acordo com a lei”, anunciou um comitê técnico de Shenzhen.

“Se tivesse atuando com um gene incompatível com a vida seria eticamente mais defensável, mas o HIV é um vírus facilmente controlável”, afirmou ao Estado Mayana Zatz, diretora do Centro de Estudos do Genoma Humano na Universidade de São Paulo (USP). “O risco de essas meninas, mais tarde, desenvolverem problemas é altamente preocupante.”

Em um dos cinco vídeos que postou no YouTube, He chamou o procedimento de uma “cirurgia genética”, que teria ocorrido de forma “segura” e que as gêmeas seriam “saudáveis como qualquer outro bebê”. Até o momento, ele não divulgou nenhum documento que prove o experimento, que tampouco foi relatado em artigo científico.

Segundo o pesquisador, o experimento começou no segundo semestre de 2017 com oito casais, nos quais todos os homens eram portadores do vírus HIV. Do total, cinco aceitaram implantar os embriões, mas apenas a mãe de Lulu e Nana engravidou. “Eu entendo que meu trabalho é controverso, mas eu acredito que as famílias precisam dessa tecnologia.”

Experimento chinês é criticado por comunidade científica

Mais de 120 acadêmicos chineses assinaram uma petição, divulgada na internet, na qual declaram que “qualquer tentativa” de fazer mudanças em embriões humanos implantados é “uma loucura” e que dar a luz a um bebê nessas condições é um “alto risco”.

O cientista foi também muito criticado por colegas de profissão de outros países. “Se for verdade, esse experimento é monstruoso”, declarou Julian Savulescu, da Universidade de Oxford. Já Kathy Niakab, do Instituto Francis Crick, de Londres, disse: “Se for verdade, será uma grande irresponsabilidade, antiética e perigosa.”

Além da China, a Rice University, nos Estados Unidos, abriu uma investigação para apurar o envolvimento do professor de Física Michael Deem, que teria trabalhado com He na China. O tipo de procedimento genético feito pelo chinês é proibido pelo governo norte-americano. “Esse trabalho, como descrito na imprensa, viola acordos científicos e é inconsistente com normas éticas da comunidade científica”, declarou a universidade em nota. 

O experimento deve ser divulgado oficial nesta terça-feira, 27, durante a Conferência de Edição de Genes, em Hong Kong. He explicou que seu objetivo não era curar ou prevenir doenças hereditárias, mas tentar criar uma característica que poucas pessoas têm: a habilidade de resistir a possíveis infecções pelo vírus HIV.

Alguns cientistas revisaram o material que o pesquisador disponibilizou para a agência de notícias Associated Press, mas disseram que a informação é insuficiente para dizer se a edição funcionou ou se danos estão descartados. Eles também notaram evidências de que a edição estava incompleta e que pelo menos uma gêmea parece ser uma "colcha de retalhos" de células com várias mudanças.

Cientistas acreditam que esse tipo de trabalho é muito arriscado para ser experimentado, e alguns deles denunciaram o estudo chinês como experimentação humana."Isso é inconcebível. Um experimento em humanos que não é nem moralmente nem eticamente defensável", disse Kiran Musunuru, da Universidade da Pensilvânia. 

Os críticos também alegam que não é possível precisar se os casais participantes tinham total entendimento do procedimento, porque, nos formulários de consentimento, estava descrito como "programa de desenvolvimento de vacinas contra Aids".

Mas He afirmou que ele explicou os objetivos do procedimento e deixou claro para os casais que o processo nunca tinha sido feito anteriormente. Além disso, disse que providenciou cobertura médica para todas as crianças concebidas pelo projeto.

Há, ainda, quem defenda o estudo. George Church, da Universidade de Harvard, destacou a iniciativa de tentar editar genes "à prova" do HIV, que ele chamou de grande ameaça à saúde pública.

Formação. He Jiankui estudou na Universidade Rice e na Stanford, ambas nos EUA, antes de voltar ao seu país natal para abrir um laboratório na Universidade do Sul de Ciência e Tecnologia, em Shenzhen. Ele também tem duas empresas genéticas. No laboratório, segundo ele, são feitas modificações de genes em ratos e macacos. 

Em 2016, um grupo de cientistas chineses foi pioneira ao utilizar a tecnologia CRISPR para a modificação genética de pacientes com câncer de pulmão, segundo a revista Nature. Pesquisadores do Reino Unidos descobriram, contudo, que essa tecnologia pode causar mais danos às células do que sabe até agora. /COLABOROU PRISCILA MENGUE

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