Pesquisador quer uma ?Embrapa? para setor farmacêutico

O Brasil precisa criar para o setor farmacêutico uma empresa como a Embrapa, que realiza pesquisas de ponta e desenvolve tecnologia valiosa para o agronegócio. A proposta é do pesquisador João Batista Calixto, do Departamento de Farmacologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). "A Embrapa criou uma base de tecnologia que põe o Brasil em destaque no agronegócio, e creio que é possível fazer o mesmo no setor de medicamentos", afirmou ele na 56.ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), em Cuiabá.No mesmo simpósio Redes Temáticas e Produção de Fármacos, a pesquisadora Maria das Graças Henrique, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), demonstrou por que razão o Brasil precisa investir neste setor: é um mercado que movimenta US$ 375 bilhões por ano no mundo, e não existe um único medicamento 100% brasileiro, considerando todas as etapas de produção de um fármaco. ?Cerca de 80% da matéria-prima é importada e aqui apenas se formula o medicamento?, revelou.Segundo Calixto, o setor no Brasil conta com 250 empresas de capital nacional e estrangeiro que pouco ? ou nada ? investem em pesquisa e desenvolvimento. ?Essa tradição se deve porque até 1998 as indústrias nacionais copiavam as patentes livremente, fazendo com que os empresários não sentissem a necessidade de procurar a universidade?, afirmou. ?Os empresários são muito imediatistas e foram treinados para copiar patentes.?Política de pesquisaSegundo Calixto, agora o País tem condições concretas de pôr em prática uma política de pesquisa e desenvolvimento de fármacos e medicamentos. "O atual governo percebeu a importância estratégica de setor, que é uma questão de soberania e segurança nacional", afirmou. Para ele, o governo acertou ao colocar os fármacos como uma das quatro prioridades da política industrial - as outras são os semicondutores, a microeletrônica e o software livre."O Brasil já está maduro para criar um programa nacional de fármacos", disse, citando o fato de o Brasil ter bom parque industrial farmacêutico, um dos maiores mercados consumidores do mundo, ciência de boa qualidade e uma das maiores biodiversidades do planeta. "Faltava uma política de médio e longo prazos para que a indústria e os investidores pudessem ver nessa área uma oportunidade de negócio", explicou.Segundo Calixto, de cada 30 mil compostos sintetizados pelos laboratórios só um se transforma em remédio comercializável, após um tempo de pesquisas que pode chegar a 15 anos e investimentos que podem superar US$ 1 bilhão. Para ele, o Brasil deve procurar nichos de mercado. Pode produzir, por exemplo, componentes de genéricos, hoje importados, ou fitoterápicos, que representam entre 3% e 5% do mercado mundial.

Agencia Estado,

22 de julho de 2004 | 12h50

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.