Pesquisadora premiada cobra recursos para ciência no País

A pesquisadora Lucia Mendonça Previato, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), quer aproveitar o momento de evidência por sua premiação internacional para cobrar do governo brasileiro mais atenção à ciência.?O prêmio deve servir para que nossas autoridades percebam que o Brasil tem potencial na área científica e tecnológica?, diz. ?Para desenvolvê-lo, no entanto, é preciso manter e elevar os investimentos e aumentar o número de bolsas de mestrado e doutorado e o valor delas.?A pesquisadora, que coordena a área de ciências biológicas e biomédicas da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), foi escolhida como uma das cinco vencedoras do Prêmio L?Oréal-Unesco para Mulheres na Ciência, de 2004, que será entregue no dia 8, em Paris. O trabalho de Lucia é dirigido à glicobiologia, o estudo dos açúcares que têm papel fundamental na comunicação celular.Ao longo de 20 anos, ela decifrou o mecanismo de interação entre o Trypanosoma cruzi, protozoário causador da doença de Chagas, e as células hospedeiras humanas. Ela e sua equipe descobriram que o parasita usa uma de suas proteínas para retirar um açúcar das células hospedeiras e transferi-lo para uma glicoproteína da sua superfície.?A elucidação desse processo pode levar ao desenvolvimento de novos quimioterápicos capazes de inibir esse mecanismo de ação e menos tóxicos para o paciente?, explica.SustoLúcia levou um susto com o telefonema que recebeu em novembro e, a princípio, nem acreditou no que ouviu. Na outra ponta da linha, o Prêmio Nobel de Medicina de 1999, Gunter Blobel, lhe comunicava que ela havia acabado de ser escolhida como uma das cinco premiadas.Mais do que os US$ 100 mil que vai receber, o prêmio representa o reconhecimento por seus avanços no entendimento da bioquímica do T. cruzi e sua dedicação à busca de tratamento e prevenção desse mal, que atinge entre 16 milhões e 18 milhões de pessoas apenas na América Latina.?É também o reconhecimento da dedicação de minha equipe?, diz. ?Ninguém faz ciência sozinho. Fiquei feliz também pelo Brasil.?Pega de surpresa pela premiação, Lucia diz que ainda não sabe o que fazer com o dinheiro. ?É o primeiro dinheiro que recebo para mim mesma?, conta.?Tanto que perguntei várias vezes a quem me premiou se ele era para mim mesmo. Num primeiro momento, pensei em aplicá-lo todo no laboratório, mas minha equipe e meus alunos se opuseram. Não acham justo. De qualquer forma, pelo menos parte dele aplicarei no laboratório. A outra parte talvez dê para meus filhos, uma moça de 24 anos e um rapaz de 22.?

Agencia Estado,

27 de fevereiro de 2004 | 11h39

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