Pesquisadores de café estranham reação etíope

As notícias de que autoridades da Etiópia estariam exigindo explicações sobre um estudo brasileiro com café naturalmente descafeinado, veiculadas pela agência de notícias Reuters, deixaram os pesquisadores um tanto perplexos.Uma reportagem divulgada na terça-feira cita até o primeiro-ministro etíope, Meles Zenawi, segundo o qual o governo estaria "averiguando o tema seriamente". A equipe de pesquisa brasileira, entretanto, diz que nunca recebeu qualquer contato ou questionamento por parte da Etiópia.A polêmica surgiu poucos dias após a publicação do estudo na revista científica Nature, em 24 de junho. Nele, pesquisadores da Universidade Estadual e do Instituto Agronômico de Campinas (Unicamp e IAC) relatam a descoberta de três plantas de café naturalmente descafeinado, desenvolvidas a partir de sementes trazidas da Etiópia na década de 60 por uma expedição oficial da Fundação das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO).Segundo o coordenador da pesquisa, Paulo Mazzafera, da Unicamp, cientistas de vários países - inclusive da Etiópia - participaram da expedição, que teve o aval do governo etíope. E as sementes coletadas, de várias espécies nativas, foram distribuídas para bancos de germoplasma em seis países: Etiópia, Índia, Tanzânia, Portugal, Peru e Costa Rica (que anos depois cedeu amostras para o Brasil)."A pesquisa, obviamente, não contém nenhuma irregularidade", afirma Mazzafera.No dia 29, a Reuters divulgou reportagem na qual o presidente da Associação Etíope de Exportadores de Café, Hailue Gebre Hiwot, exige explicações sobre a retirada de espécies do país e diz que os cientistas brasileiros poderão ser processados pela "obtenção ilegal de propriedade etíope"."Claramente, quem fala isso não leu o estudo com atenção", afirma Mazzafera. O trabalho deixa claro que as plantas foram coletadas na Etiópia pela FAO, com a participação da Etiópia.A troca de material genético entre países é prática comum e essencial para o melhoramento de variedades agrícolas. A meta dos brasileiros agora é tentar transferir as características da planta descafeinada para variedade agrícolas de maior produtividade.

Agencia Estado,

14 de julho de 2004 | 11h32

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